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Texto da Palestra da Dra. Leila Strazza de Azevedo
Pesquisadora de Comportamento de Risco do NUPAIDS-USP 
(Núcleo de Pesquisa Epidemiológica em AIDS da Universidade de São Paulo)

Centro Cultural de São Paulo: Sala Adoniran Barbosa
(9 de março de 1994)

O SIMBÓLICO DA PRISÃO FEMININA
MULHER E AIDS


Pensando-se no atual perfil epidemiológico em AIDS que diz que existe uma mulher contaminada com o vírus HIV para cada cinco homens (Boletim Epidemiológico-programa DST/AIDS -1994) pode-se prever que, dentro de poucos anos(3 a 4 anos), haverá o mesmo número de homens e mulheres HIV+.

Não é possível mais acreditar que a AIDS é coisa de homossexuais, drogados, promíscuos…do OUTRO!

A AIDS é um problema de todos e, segundo Cheney B. e O´leary S.(1993- contra capa), o HIV representa uma TRIPLA AMEAÇA para as mulheres:

“1- Assim como o homem, a mulher pode se contaminar com o HIV e pode, posteriormente, ficar doente de AIDS;

2 -Uma vez contaminada, a mulher pode transmitir a infecção para seu bebê durante a gravidez e sua criança poderá desenvolver a doença;

3 - A responsabilidade de cuidar, em casa, de pessoas doentes recai tradicionalmente sobre a mulher. É ela também quem carrega este fardo quando alguém de seu círculo de familiares fica com AIDS.”

Vivemos, embora seja difícil para a mulher aceitar, numa Sociedade Patriarcal e Machista (Cheney B. e O´leary S.,1993) que confere ao homem, ao longo de muitos séculos o controle do poder com todos os múltiplos papéis que lhe são atribuídos e exigidos no dia-a-dia:

-         ser bem sucedido e seguro de si;

-         excelente provedor;

-         forte…o grande HERÓI! Aliás, o ZORRO, embora antigo, continua na lista de preferência das crianças, que se deleitam como o adulto, com a sua cavalgada ao deixar uma cidade com uma nuvem de poeira e com uma multidão agradecida por ele ter derrotado os bandidos…no final do filme, uma linda mocinha, com os olhos marejados de lágrimas de gratidão e paixão, acena o lenço branco para o HERÓI!

Voltemos a falar dos papéis do homem que não tem o direito de chorar, fracassar…mas, o preço para desempenhar todos esses papéis é muito justo: ele, apenas, quer ter em suas mãos o controle de todas as situações.

Será que é realista esperar que estes homens experimentem práticas que lhes parecem contrárias ao seu prazer e natureza? Como a mulher vai pedir para o HERÓI, por exemplo, que use a camisinha?

Eu gostaria de arriscar uma pergunta para a platéia

Por favor luzes e microfone na platéia:

- Vocês acham que o HERÓI… o HERÓI de cada uma de VOCÊS, MULHERES, pode ter AIDS?

(silêncio na platéia…muita risada, mas ninguém falou)

- Vocês estão querendo me dizer que a AIDS é uma coisa feia e que, normalmente, o HERÓI é bonito, ainda mais quando é o NOSSO HERÓI?

- Alguém quer, ainda, me afirmar: "Graças a Deus eu estou sozinha e não tenho HERÓI"

Eu lhe respondo:

- APAIXONE-SE!

(muita risada na platéia)

Vamos aproveitar o tema paixão e misturá-lo com drogas…meu Deus, que droga!

Eu não estou dizendo que apaixonar-se é uma droga, porém quero que percebam o quanto, ambas (paixão e drogas), levam as pessoas às alturas. Pessoas que já fizeram ou fazem parte da famosa "roda de pico" dizem que, naquele momento, elas se sentem meio donas do mundo…aliás, será que existe mundo para a roda de pico e para os apaixonados?

E a camisinha? Será que existe algum espaço para ela nestes momentos de tanto êxtase?

Mas…voltemos ao HERÓI que é um vencedor, mas…que lida com o lado negativo do narcisismo. Segundo Lowen (1993), o narcisista é um ser muito preocupado consigo mesmo, que vê o mundo girando ao seu redor e com uma característica principal, ou seja, ausente de sentimento.

Vamos deixar esta teoria (Lowen 1993) bem clara exemplificando com uma figura muito conhecida e popular: RENATO GAÚCHO.

Matéria da Revista Veja, reportagem com Renato Gaúcho(1994-pág.102) que traz o seguinte título em letras garrafais:

O CRAQUE QUE JOGA EM DOIS TIMES:

(transcrição de alguns trechos da matéria)

"…afirma ter feito 1.000 gols fora do casamento - num deles vai ser papai. Atenção candidatas à um romance com o jogador Renato Gaúcho: não adianta levar camisinha na bolsa…"

Palavras de Renato Gaúcho:

"Não uso mesmo, porque nunca vi homem que é homem morrer de AIDS"

Seguindo com esta matéria da Veja (1994-pág.102) :

"Pelas regras do bom senso, a atitude do atacante do Flamengo, além de perigosa, é de machismo que não cabe no Maracanã. Para uma legião de mulheres que o assedia como  um galã de novelas, isso é um detalhe que não tem a menor importância: o que conta mesmo é o corpaço de 1,85m de músculos com seus 85 kilos…"

Roberto Gaúcho, nesta matéria, se diz “viciado em mulheres e paqueras e vangloria-se das 1.000 mulheres que carrega no seu currículo e assume que adora contar os detalhes de suas aventuras: (Veja, 1994-pág.102)

"Falar também tem o seu charme…"

Não quero comentar a atitude dele, mas vou, apenas, deixar registrado o comentário de sua esposa (casamento de 8 anos) para vocês refletirem : (Veja 1994, pág.102)

-         " O Renato não é do jeito que eu quero, mas não se pode moldar as pessoas"

Quero, também, registrar as palavras de Renato Gaúcho ao referir-se à esposa, para vocês pensarem: (Veja1994, pág.102)

" Maristela para mim é tudo, me dá carinho e cozinha como ninguém…"

Eu tenho me questionado sobre os valores e as mudanças de comportamento em nossa sociedade ao longo dos anos.

Eu gostaria de relembrar um movimento que ocorreu em 1968 e que discutiu, entre os assuntos que se misturaram ao político, os valores da Sociedade Patriarcal e Machista: casamentos abertos, quebra de tabu da virgindade…este movimento fez com que as mulheres fossem à praça pública rasgar sutiã, gritar pelos seus direitos econômico-sociais…ou seja, ir em busca de sua igualdade !

Pensando neste movimento e na busca de direitos da mulher, eu vou contar-lhes que, nos últimos dois anos, eu participei de uma pesquisa (Paiva, 1994) realizada com 5.000 alunos de 14 à 20 anos de idade, de ambos os sexos, que estudam no período noturno de escolas estaduais em regiões de alta incidência em AIDS.

Nesta pesquisa, eu trabalhei, exatamente, com estas questões de gênero. Veja o recorte do discurso, espontâneo, de meninos e meninas ao serem questionados, vai ilustrar as minhas palavras:

Pergunta aos meninos:

O que é ser homem para você?

"É ser macho, gostar de mulher, trepar muito, não ser bicha, jogar futebol…"

Pergunta às meninas:

O que é ser mulher para você?

" É ser meiga, compreensiva, dona de casa, ser mãe, frágil, honesta…mulher chora fácil."

FIDELIDADE para as meninas:

"TEM que ser do homem e da mulher, mas eu não ponho a mão no fogo  pelo meu namorado…não quero perder (ele) para a outra!"

Para os meninos existem 2 tipos de mulher:

1)   para casar:

"honestas, bonitas de rosto e corpo…só é da gente…"

2)   ………………………………….

"as galinhas que dão para todo mundo…"

SEXO

a)   para os meninos: "descarrego…se ficar muito tempo sem transar, sobe para cabeça…"

b)   para as meninas: "eles (homem) tem que saber mais de sexo que as mulheres…gozar é coisa do homem mesmo…"

Recorte do discurso de uma aluna casada:

"Não se pode dizer não para o marido, senão a gente perde para a vagabunda…elas roubam o homem da gente e mandam doença ruim…"

Diante do acima, eu quero refletir sobre o real significado do que é ser mulher liberada.

Eu poderia usar definições de muitos autores conhecidos, mas NÃO quero, pois, para mim,  mulher liberada não é aquela que trabalha fora para completar o orçamento da casa e que, obrigatoriamente, cumpre uma dupla jornada de trabalho (durante o dia ela trabalha fora de casa e durante à noite trabalha com os serviços do lar).

A mulher liberada opta por trabalhar fora ou dentro de casa, tem seus ideais próprios, o seu projeto de vida; a sociedade, embora lenta, se movimenta e se transforma e a mulher participa dela com a sua transformação diária. É um processo interno que não se identifica com a mulher que mora sozinha ou que tem meia dúzia de filhos, mas sim com o superar preconceitos: sociais, econômicos, pessoais…

A mulher liberada busca um companheiro e não um provedor.

Este COMPANHEIRO significa aquele homem com um projeto de vida que sabe respeitar o projeto de vida da mulher; ambos  fortalecem-se e crescem juntos, mas cada qual no seu caminho, pois eles conhecem a linguagem do VOCÊ, EU e NÓS.

É claro que para que isto se torne real e para que a mulher possa sair de sua prisão simbólica, é necessário que ela deixe de ser a Bela Adormecida que só acorda com o beijo do príncipe encantado e que deixe de sonhar de cavalgar na garupa do Zorro de véu e grinalda !

Mulheres acordem!

É o momento exato de vocês descobrirem o lado positivo da PESTE DO SÉCULO XX resgatando o que é de vocês, ou seja, a sua real SINGULARIDADE!

Assim, eu tenho certeza que esta incidência de MULHERES e AIDS não vai mais se multiplicar.

Obrigada,

Leila


Referências Bibliográficas

Boletim Epidemiológico- programa DST/AIDS - Secretaria do Estado de São Paulo - 1994

Cheney B. e O´leary S.,  A TRIPLA AMEAÇA: mulheres e AIDS, Rio de Janeiro, ABIA, Recife, PE: SOS Corpo, Londres, Inglaterra, Panos Institute, 1993

Lowen A.; Narcisismo, Editora Cultrix, São Paulo, 9a edição,1993

Paiva V.; Sexualidade e Gênero num trabalho com Adolescentes para Prevenção do HIV/AIDS in A AIDS no Brasil, Parker R. et all, ABIA relume e IMS-UERJ Dumará, Rio de Janeiro, 1994

Revista Veja- 15 de dezembro de 1994 - página 102

Questionário sobre Comportamento de Risco: Trabalho Científico do NupAIDS Visite o nosso site e responda à nossa pesquisa na internet através do endereço: http://www.saudetotal.com/dim/sexoseg

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