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A obesidade é o principal distúrbio de nutrição
das sociedades desenvolvidas, atingindo 10% da
população. Mais do que uma preocupação estética,
a obesidade, por si mesma ou potencializando
distúrbios como o diabetes, a pressão alta e os
problemas articulares, contribui de forma
importante para reduzir a qualidade e a
expectativa de vida. Desta forma, ela deveria
ser combatida de uma forma enérgica, racional e
honesta. Mas isto nem sempre acontece, devido à
tendência das pessoas à lei do menor esforço,
que favorece as ofertas "mágicas" de tratamento
criadas por maus profissionais: dietas
mirabolantes, formulas milagrosas, aparelhos e
tratamentos caros e ineficazes contra "celulite"
etc. Por isso, segue abaixo algumas
verdades e
mentiras sobre as causas da obesidade e seu
tratamento.
1) Toda pessoa com excesso de peso é obesa.
Mentira. O pugilista Mike Tyson mede 1,81 m e
pesa 99 kg. A sua relação de peso/altura( índice
de massa corporal ou IMC) é de 30,219. Este
valor o classificaria como obeso, pois homens
devem ter IMC até 25, sendo "gordinhos"quando
estão entre 25 e 30, e obesos acima de 30. No
entanto, a maior parte do peso de Tyson é devido
à sua massa muscular, e obesidade é por
definição o excesso de peso às custas de
gordura. Existe um aparelho que, pelo princípio
da bioimpedância, é capaz de relacionar quanto o
corpo de uma pessoa tem de gordura, de músculos,
de água, etc. Da mesma forma, uma mulher com
problemas nos rins poderá ter IMC superior a 24,
(que é o limite deste índice para o sexo
feminino), e estar na verdade inchada, com
excesso de água no corpo. No entanto, para a
maioria da população, que não é atleta ou sofre
dos rins, o IMC é um termômetro adequado da
obesidade. Para você calcular o seu, divida o
seu peso pelo quadrado de sua altura. Por
exemplo: se você for mulher e pesar 60 kg, tendo
1,55 m de altura, o seu IMC será de 24,974.
2) Todo o tipo de obesidade leva ao mesmo risco
para a saúde.
Mentira. Além do grau da obesidade (quanto mais
gordo o indivíduo maior o seu risco), a
disposição da gordura no corpo também é fator de
risco. Assim, quando a pessoa tem acúmulo de
gordura no tórax e principalmente na barriga
(obesidade central ou em "maçã") a possibilidade
de ocorrer diabetes, pressão alta, colesterol
elevado, problemas cardíacos é muito maior do
que se tivesse excesso de gordura nos membros e
nádegas ( obesidade periférica ou em "pêra"). A
obesidade central também é chamada de andróide,
porque ocorre mais no sexo masculino, e a
periférica de ginecóide, por ser mais comum em
mulheres.
3) Uma pessoa pode ser gorda e comer e
exercitar-se de forma semelhante a uma magra da
mesma idade, sexo e altura.
Verdade. Embora geralmente a obesidade decorra
de acúmulo de gordura provocado por excesso de
calorias alimentares e pouco gasto calórico por
sedentarismo, não há dúvida de que existem
eficiências metabólicas diferentes entre as
pessoas. Estas características parecem ser
herdadas, e a Medicina está começando a
desvendar o porquê destas diferenças através do
estudo dos genes e da descoberta de substâncias
fabricadas pelo organismo que atuam na queima
calórica.
4) As dietas que melhor funcionam são as que
evitam certa mistura de alimentos ou as que
utilizam apenas um tipo de alimento por dia.
Mentira. Todas as dietas funcionam quanto à
perda de peso, desde que a pessoa esteja
motivada. No entanto, estas dietas de moda não
tem qualquer fundamento científico, carecem de
fatores nutritivos apropriados, e não resistem
ao tempo. A dieta ideal deve ser equilibrada,
conter todos os nutrientes que o organismo
necessita, e educar o paciente para mantê-la a
longo prazo. Para tanto, é importante que a
pessoa se familiarize com o valor calórico dos
alimentos. Há mais de 20 anos utilizamos um
sistema de pontos - uma forma simplificada e
atraente de se lidar com calorias - que se
mostrou muito útil no processo de reeducação
alimentar. Cada ponto corresponde a
aproximadamente 3,6 calorias, e dependendo do
sexo, idade e atividade física, uma pessoa terá
direito a consumir de 220 a 350 pontos por dia.
5) Exercícios físicos são importantes em um
programa de emagrecimento.
Verdade. Os exercícios físicos auxiliam o
emagrecimento por 2 motivos: aumentam o gasto
calórico e tendem a relaxar a pessoa, diminuindo
a ansiedade e a compulsão alimentar.
Adicionalmente, se realizados adequadamente, tem
efeito benéfico para o coração, pressão
arterial, pulmões, etc. Embora existam
atividades físicas mais completas do que outras
(natação, por exemplo), o melhor exercício é
mesmo aquele que a pessoa gosta de fazer, porque
dará continuidade ao mesmo. Devemos alertar, no
entanto, que é muito difícil perder peso apenas
com exercícios: 1 hora de caminhada em ritmo
moderado leva à perda de 300 calorias, valor
encontrado em 1 hambúrguer ou em 3 maçãs ! Desta
forma, os exercícios físicos são muito
bem-vindos como auxiliares da dieta de
emagrecimento.
Lembramos ainda que, ao exercitar-se
regularmente, você aumentará a sua massa
muscular à medida em que perde gordura. Desta
forma não estranhe se seu IMC não se reduzir
proporcionalmente à melhora de sua silhueta.
6) Os moderadores de apetite tem o seu lugar no
tratamento da obesidade.
Verdade. Embora a dupla dieta/exercícios seja a
mola mestra na perda de tecido gorduroso, por
vezes é importante a utilização racional de
moderadores de apetite. Eles podem ser
classificados em 2 grupos:
a) Inibidores da fome: são drogas que apresentam
efeitos atenuados da anfetamina: tiram realmente
a fome, mas seu efeito tende a diminuir em cerca
de 1 a 2 meses de tratamento. Por outro lado,
podem levar a sintomas como boca seca,
nervosismo, insônia, batedeira no coração,
redução do apetite sexual. Podem ainda levar à
dependência. Devem, portanto, ser utilizados com
critério, sendo contra-indicados em pessoas
cardíacas, com pressão muito alta, ou com
problemas psiquiátricos. O uso em crianças e
idosos deve ser excepcional. Exemplo destas
drogas são a dietilpropiona (anfepramona), o
fenproporex e o mazindol. Bons candidatos ao uso
destas drogas são pessoas que não eram obesas e
engordaram circunstancialmente: mulheres após
gestação, executivos que passam para uma função
que os obriga a freqüentar almoços de negócio ou
pessoas que, ao casar, suspenderam os esportes.
b) Promotores de saciedade: são medicamentos que
aumentam o nível de uma substância presente no
organismo, chamada serotonina. A serotonina tem
a propriedade de avisar à pessoa que ela já
comeu o suficiente, ou seja, que ela está
saciada. No entanto, não se sabe se por causa ou
efeito, algumas pessoas produzem menos
serotonina em resposta à alimentação, e são mais
dificilmente saciáveis. É o clássico exemplo da
mulher que, mesmo após o jantar, "acaba" com uma
caixa inteira de chocolate: é a comedora
compulsiva. Estas drogas, cujo principal exemplo
é a dexfenfluramina, que, ao contrário dos
medicamentos citados acima, não levam ao
nervosismo (pelo contrário, podem até dar sono
acentuado), e reduzem a pressão arterial.
Adicionalmente, podem ser utilizadas por
períodos maiores, sem perder o efeito. No
entanto, também levam à secura bucal, podem
reduzir a libido, e, muito raramente, levar a um
problema clínico sério, a hipertensão pulmonar.
A decisão do uso de drogas moderadoras do
apetite (anorexígenos), bem como a escolha do
remédio ideal para cada paciente, deve caber ao
especialista.
7) As "fórmulas" para emagrecer são mais
eficazes do que os medicamentos prontos.
Mentira. Na verdade, uma "fórmula" pode conter a
mesma droga (com o nome químico) que é
encontrada em produtos industrializados. A sua
vantagem é a maior flexibilidade de doses, que
podem torná-la mais adequada para uma pessoa
para a qual a dose no preparado pronto é
excessiva. No entanto, cuidado com misturas de
medicamentos, muitas vezes inadequadas e
perigosas. Mais cuidado ainda com "fórmulas" nas
quais não constam o nome químico das drogas, e
sim "códigos". Imagine se você estiver fazendo
uso deste tipo de preparado, passar mal em
Miami, e o médico que o atender não tiver
condições de saber o que você ingeriu.
8) Grande parte dos casos de obesidade são
devidos à distúrbios das glândulas endócrinas.
Mentira. As causas hormonais respondem por menos
de 5% das obesidades. A tiróide é a glândula
mais freqüentemente acusada de causar obesidade.
De fato, pessoas que têm hipotiroidismo (redução
do funcionamento da tiróide) apresentam
metabolismo mais lento. Por outro lado, têm
menos apetite. Desta forma, dificilmente um
paciente com hipotiroidismo será um verdadeiro
obeso. Em geral, a maior parte de seu excesso de
peso corre por conta do acúmulo de líquidos que
ocorre nesta doença. No entanto, por indução de
maus profissionais, muitas pessoas tomam
hormônios de tiróide sem necessidade, na
premissa de que irão emagrecer. Assim, os
hormônios tiroidianos somente devem ser
administrados a pessoas nas quais a tiróide
realmente funciona pouco.
9) Diuréticos, laxativos, e injeções de
"enzimas" têm papel importante no tratamento da
obesidade.
Mentira. Diuréticos fazem perder água. Se
levarmos em conta que cerca de 60% de nosso
organismo é constituído por este líquido,
poderemos entender que a perda de água reduz o
peso, mas não emagrece. É mais ou menos o que
acontece quando fazemos sauna. Os diuréticos
provocam também a perda de minerais como o
potássio, o que pode levar a conseqüências
desastrosas para o nosso organismo. Desta forma,
o uso de diuréticos deve ser reservado para as
pessoas com edemas (retenção de líquidos),
pressão alta ou insuficiência cardíaca. Os
laxantes por sua vez também levam à expoliação
de minerais, além de provocarem irritação
intestinal. Quanto a injeções de "enzimas",
cuidado com elas: Além de ineficazes, podem
provocar problemas alérgicos.
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