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Sobre os
mecanismos pelos quais todas as formas de
atividade física
podem beneficiar a saúde geral e cardiovascular.
A prática
esportiva dos exercícios com pesos, conhecida
como musculação, foi no passado objeto de muitas
opiniões desfavoráveis com relação aos seus
efeitos na saúde e na aptidão física.
Invariavelmente, tais opiniões não eram baseadas
em dados científicos, objetivos e mensuráveis,
mas apenas em raciocínios fisiológicos ou
fisiopatológicos. Com o acúmulo de evidências
científicas que não endossaram os supostos
inconvenientes, e com a popularização da
modalidade, críticas deixaram de ser uma
ocorrência comum, pelo menos a nível de
profissionais. Atualmente vivemos um período
caracterizado por farta documentação de efeitos
salutares dos exercícios com pesos, mas ainda
nos deparamos com a desinformação e com a
resistência em aceitar mudanças conceituais.
Um aspecto em que ocorre desinformação e
resistência à reconsiderações são os efeitos dos
exercícios com pesos na saúde cardiovascular.
Com certa freqüência encontramos a afirmação de
que "musculação é bom para a estética, mas as
coronárias exigem exercícios aeróbios". Aceitar
ou não esta afirmação não é uma questão de
opinião pessoal. Trata-se de aceitar ou não o
posicionamento das principais entidades
científicas internacionais no sentido de que
qualquer tipo de exercício contribui para evitar
doenças cardíacas coronarianas.
Em recentes revisões da literatura científica
sobre atividade física e saúde, o National
Institutes of Health e o Centers for Disease
Control and Prevention, órgãos do governo
norte-americano, concluíram que todos os tipos
de exercícios parecem ter os mesmos efeitos
benéficos para a saúde geral e do coração. Estas
conclusões estão solidamente fundamentadas em
critérios epidemiológicos clássicos como
consistência, força, seqüência temporal,
dose-resposta e coerência. A ação benéfica dos
exercícios para a saúde cardiovascular não
parece ser relacionada com maior vascularização
cardíaca, como já se imaginou. Os mecanismos de
atuação parecem ser o alívio de estresse
emocional, o combate à obesidade pelo maior
gasto calórico e pelo aumento da taxa metabólica
basal, o combate ao diabetes pelo aumento da
sensibilidade das células à insulina e pelo
estímulo ao metabolismo dos carboidratos, a
redução dos níveis de pressão arterial devido à
redução da sensibilidade dos vasos à ação das
catecolaminas, a menor tendência às arritmias
pela redução da sensibilidade do miocárdio à
ação adrenérgica, o aumento nos níveis de
HDL-colesterol, a redução dos níveis séricos de
triglicerídeos, o estímulo à fibrinólise e a
redução da agregação plaquetária. Todos esses
efeitos são conseguidos também por meio dos
exercícios interrompidos, que não melhoram a
condição aeróbia, tal como os exercícios com
pesos. Atualmente o American College of Sports
Medicine reconhece que qualquer tipo de
exercício tem os mesmos efeitos salutares, ao
contrário do que a entidade preconizava em
recomendações anteriores a 1995, que enfatizavam
a importância de exercícios aeróbios para a
saúde. A campanha Agita São Paulo da Secretaria
de Saúde do Estado, em perfeita sintonia com os
novos conhecimentos, recomenda qualquer tipo de
exercício, sem excessos, para melhorar os níveis
de saúde geral e cardiovascular da população.
Com relação à segurança cardiovascular, quando
bem realizados, os exercícios com pesos
apresentam baixo risco de acidentes vasculares
cerebrais e coronarianos. A eficiência do
treinamento exige pesos relativamente elevados,
que permitem poucas repetições, mas desde que
não se façam esforços absolutamente máximos, que
tendem para a isometria em apnéia, a pressão
arterial aumenta dentro de níveis seguros. Com
os intervalos de descanso entre as séries sendo
relativamente longos, geralmente acima de um ou
dois minutos, a freqüência cardíaca aumenta
muito pouco. Assim sendo, o duplo-produto
(pressão arterial sistólica x freqüência
cardíaca) dos exercícios com pesos é baixo, já
tendo sido demonstrado que o caminhar rápido em
plano levemente inclinado apresenta estresse
cardiocirculatório maior do que o treinamento
com pesos para hipertrofia muscular com 75% de
carga máxima.
A boa segurança cardiológica do treinamento com
pesos bem orientado, mesmo para cardiopatas
estáveis e bem avaliados, estimula a sua
crescente utilização por pessoas idosas, cuja
perda de massa muscular, massa óssea e
flexibilidade, comprometem gravemente a
independência funcional. Recente estudo
demonstrou que idosos que envelheceram
praticando corrida ou natação apresentaram os
mesmos níveis de hipotrofia muscular encontrados
em idosos sedentários. Ao contrário, idosos que
envelheceram praticando exercícios com pesos
conservaram a massa muscular. Um conceito atual
em reabilitação geriátrica é não recomendar
caminhadas para idosos enfraquecidos antes de um
programa de fortalecimento muscular com pesos,
no sentido de evitar quedas e fraturas graves.
Aspecto importante é que os aumentos perigosos
de pressão arterial e de freqüência cardíaca que
muitos idosos apresentam nas atividades da vida
diária apenas conseguem ser revertidos com os
aumentos de massa muscular e força, induzidos
pelos exercícios com pesos. O condicionamento
aeróbio não reverte a situação. A explicação é
que para pessoas enfraquecidas, os esforços da
vida diária são de alta intensidade,
determinando respostas hemodinâmicas excessivas.
Para pessoas mais fortes, os mesmos esforços são
de menor intensidade, exigindo menor grau de
esforço muscular, e conseqüentemente induzindo
menores alterações de pressão arterial e
freqüência cardíaca.
Pode ser oportuno lembrar que os exercícios com
pesos não apresentam os fatores predisponentes
ao trauma, tão comuns na maioria das atividades
esportivas: impactos, acelerações,
desacelerações, torções, risco de trauma direto
e de quedas. A carga, desde que não excessiva,
não é um fator de lesão. Ao contrário, apresenta
efeitos tróficos, estimulando o fortalecimento
dos tecidos.
Em resumo, a situação atual do conhecimento
científico permite afirmar que qualquer tipo de
atividade física tem efeitos semelhantes e
importantes para a promoção da saúde geral e
cardiovascular. O que se espera dos
profissionais da saúde é que estimulem na
população um estilo de vida mais saudável, que
inclua a atividade física que for mais agradável
para cada pessoa, em volume e intensidade
adequados à sua condição física. Radicalizar a
indicação para um tipo de atividade mais
sistematizada, como os exercícios aeróbios,
certamente não é o caminho para a generalização
do hábito do exercício. Mesmo porque, se
compararmos a segurança e os benefícios dos
diversos tipos de atividade física, veremos que
a melhor associação de qualidades será
apresentada pelos exercícios com pesos.
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