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Ao escrever
trabalhos destinados à veículos de informação
especializados, todo profissional bem formado
sabe que as afirmações do texto devem estar
fundamentadas na literatura científica
internacional. No entanto, com alguma
freqüência, bons e reconhecidos profissionais
não observam este preceito técnico e ético
quando se dirigem ao público leigo. Na área da
atividade física, impressões pessoais e até
mesmo preconceitos extra-universitários têm sido
transmitidos à população em veículos
informativos de grande circulação, com a
justificativa de que são posições científicas.
Deve ser lembrado que o adjetivo "científico"
para uma afirmação somente pode ser aplicado
quando existe coerência com trabalhos publicados
na literatura especializada internacional,
realizados com o rigor dos métodos de
investigação experimental ou observacional. Tais
métodos incluem sempre a análise estatística dos
resultados, com testes de significância. Um
raciocínio fisiológico ou fisiopatológico
qualquer, que leva à alguma conclusão, por mais
lógico que seja, constitui apenas uma hipótese
teórica. As hipóteses devem ser testadas em
protocolos práticos antes de permitir
conclusões.
Particularmente
com relação aos exercícios resistidos, temos
encontrado em veículos de informação popular
afirmações sem qualquer fundamentação
verdadeiramente científica, atribuídas a
respeitados profissionais. Com a devida ressalva
de que muitas vezes as afirmações são mal
interpretadas pelos entrevistadores, o resultado
prático é um desserviço à comunidade. Parcelas
consideráveis da população podem ser afastadas
da atividade sem justificativa real, e os
profissionais e empresas do setor sofrem
prejuízos materiais.
Em 1995, o
National Institutes of Health, o Centers for
Disease Control and Prevention, e o American
College of Sports Medicine realizaram congressos
internacionais para a discussão de toda a
literatura científica sobre atividade física.
Com base nas publicações decorrentes desses
encontros, e na literatura disponível,
comentamos a seguir algumas afirmações sem base
científica sobre atividade física, recentemente
coletadas em revistas, jornais e televisão.
"Atividade física
mínima é o ideal". O consenso
estabelecido foi que atividade física suficiente
para gastar pelo menos 200 Kcal. em média diária
já é suficiente para diminuir acentuadamente o
risco estatístico de desenvolvimento de doenças
crônicas. No entanto, pessoas mais ativas
apresentam risco ainda menor, pelo que a
população deve ser estimulada a aumentar
progressivamente o seu gasto calórico com
atividade física, desde que respeitem a
capacidade de recuperação do organismo.
"Exercícios aeróbios
são mais saudáveis". Os trabalhos
analisados levaram à conclusão de que os
diversos tipos de atividade física apresentam os
mesmos benefícios salutares, quaisquer que sejam
as características do metabolismo energético e
da contração muscular, diferindo apenas com
relação ao tipo e ao grau de aptidão física
desenvolvida. As evidências sugerem que até
mesmo o desenvolvimento das doenças
cardio-circulatórias é dificultado por
atividades físicas que não melhoram o
condicionamento aeróbio.
"A qualidade de vida é
melhor estimulada pelos exercícios aeróbios".
A força muscular e a flexibilidade foram
identificadas como as qualidades de aptidão mais
importantes para a qualidade de vida, entendida
como a capacidade de realizar as tarefas da vida
diária sem limitações de desempenho. No caso da
força muscular, sua importância transcende as
necessidades biomecânicas para a realização das
atividades diárias, mas também é fundamental
para a homeostase hemodinâmica nos esforços
envolvidos, aliviando o estresse
cárdio-circulatório.
"Os exercícios com
pesos devem ser limitados a pessoas jovens e
sadias". O NIH Consensus Statements
afirma textualmente: "os exercícios com pesos
são particularmente indicados para pessoas
idosas e debilitadas". Isto se deve não apenas
aos eficientes estímulos dos exercícios
resistidos para a massa muscular, densidade
óssea e flexibilidade, mas à alta segurança
geral e cardiológica atualmente reconhecidas.
Desde que se evitem as contrações isométricas
com cargas máximas, a pressão arterial sobe
dentro dos limites de segurança, e a freqüência
cardíaca aumenta muito pouco, devido ao caráter
interrompido da atividade. Pessoas idosas e
enfraquecidas não devem ser estimuladas a
caminhar antes de um programa para
fortalecimento muscular, devido ao alto índice
de quedas observados nessas condições.
"Os exercícios com
pesos apresentam grande risco de lesões".
As estatísticas demonstram que a
incidência de lesões musculo-esqueléticas é
muito baixa nos exercícios com pesos bem
orientados. Lesões ocorrem em três situações
particulares: treinamento não supervisionado,
uso de equipamento mal projetado e cargas
excessivas. Não apenas as cargas podem ser
facilmente adaptadas à condição física
individual, mas também as amplitudes dos
movimentos e todos os outros fatores do
treinamento. Não ocorrem mudanças de direção,
acelerações e desacelerações bruscas dos
movimentos, e o risco de quedas é mínimo.
"Os exercícios com
pesos prejudicam o crescimento dos
adolescentes". Muitos trabalhos foram
realizados para esclarecer esta importante
questão, e não foram evidenciados efeitos
nocivos ao crescimento estatural ou à
integridade das cartilagens articulares. Até
mesmo crianças pré-puberes em treinamento com
pesos foram estudadas, sem que se observassem
quaisquer prejuízos para a saúde ou para a
aptidão física. Ao contrário, evidências sugerem
que o treinamento com pesos em crianças
praticantes de esportes em geral pode diminuir o
risco de lesões.
"O treinamento com
pesos diminui a flexibilidade e a velocidade dos
praticantes". Diversos trabalhos
documentam os efeitos opostos à essas
afirmações. Além disto, a experimentação
empírica de atletas e treinadores de diversas
modalidades esportivas também contraria essa
hipótese. Lutadores, velocistas e muitos outros
atletas, incluindo os dedicados à provas de
longa duração, têm o seu desempenho
sensivelmente favorecido pelo treinamento com
pesos.
"Apenas os exercícios
aeróbios favorecem a redução da gordura
corporal". Não existem trabalhos
científicos que justifiquem essa afirmação.
Todos os livros clássicos de fisiologia e
metabolismo esclarecem que qualquer tipo de
exercício favorece o emagrecimento, por gastar
calorias e ativar o metabolismo. Diversos
trabalhos comparando exercícios aeróbios e
anaeróbios documentam mobilização de gordura nos
mesmos níveis. A explicação é que qualquer que
sejam os substratos energéticos mobilizados
durante a atividade física, a reposição dos seus
depósitos é prioridade metabólica durante a
alimentação subseqüente aos exercícios. Caso
faltem calorias no balanço calórico diário,
haverá mobilização do tecido adiposo. Em
repouso.
"Exercícios com pesos
produzem hipertensão arterial e prejudicam o
coração". Os trabalhos científicos
documentam redução da pressão arterial em
repouso em pessoas treinadas com pesos, tal como
ocorre com todas as outras formas de atividade
física. Nunca se documentaram efeitos dos
exercícios resistidos prejudiciais ao coração.
"Não é possível
desenvolver grandes músculos sem drogas
anabolizantes". Todas as pessoas
pós-púberes conseguem aumentar a massa muscular,
até mesmo mulheres nonagenárias. O grau de
hipertrofia obtido depende basicamente de
características genéticas favoráveis. Muitos
indivíduos abusam de drogas anabolizantes na
tentativa de superar genética desfavorável e não
conseguem grande massa muscular. Por outro lado,
é comum encontrarmos praticantes de musculação
que não se dedicam às competições e que
conseguiram grande massa muscular sem
anabolizantes.
"Musculação de
competição não é saudável". Caso essa
afirmação seja motivada pelo uso de drogas, deve
ser atribuída às competições de todas as
modalidades esportivas.
"O desejo de aumentar a
massa muscular é doentio".
Comentários dispensáveis.
Para benefício de
todos, esperamos que os profissionais avaliem
melhor as suas declarações em veículos de
comunicação popular.
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