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Entendemos por
boa qualidade de vida, no sentido da aptidão
física, a condição de poder realizar as
atividades desejadas, do ponto de vista
biomecânico e homeostático, e sem riscos para a
integridade do organismo. Para tanto, contribuem
condições neuro-musculares, ósteo-articulares,
metabólicas e hemodinâmicas. Evidentemente, o
grau de aptidão necessário para uma boa
qualidade de vida depende das atividades
pretendidas. Quando existe o desejo de realizar
atividades intensas, prolongadas e freqüentes,
os níveis de aptidão serão altos, muitas vezes
não compatíveis com a idade da pessoa devido às
limitações próprias do envelhecimento, ou com a
presença de condições patológicas. Pessoas com
pretensões esportivas devem buscar um programa
de condicionamento físico designado
especificamente para as necessidades de aptidão
de sua modalidade, naturalmente adaptado para a
sua idade e condições de saúde. Pessoas não
dedicadas à esportes, mas que desejam aptidão
necessária para os esforços da vida diária e do
trabalho braçal, recreativo, doméstico ou
profissional, também devem buscar um programa de
exercícios progressivos para esses objetivos. No
caso de pessoas idosas sedentárias, a qualidade
de vida está muito relacionada com a
independência funcional, pois a perda de aptidão
produzida pela falta de atividade física pode
comprometer gravemente a condição de viver sem
depender de outras pessoas.
Dada a
importância de intervenções objetivas,
eficientes e seguras para preservar ou restaurar
a qualidade de vida das populações geriátricas,
diversos estudos foram realizados com o
propósito de identificar as qualidades de
aptidão mais importantes para esses objetivos.
Identificou-se a força e a flexibilidade como as
qualidades de aptidão mais importantes para a
independência funcional, para a execução das
tarefas mais comuns no dia a dia das pessoas e
para o trabalho braçal em geral. Levantar e
sentar, subir escadas, transportar objetos,
utilizar ferramentas e utensílios diversos são
exemplos de atividades em que força e mobilidade
articular são importantes. Vestir as roupas e
cuidar da higiene pessoal são tarefas muito
prejudicadas pela falta de mobilidade nas
diversas articulações. Em função de sua
eficiência para o aprimoramento da força e da
mobilidade articular, o treinamento com pesos
foi bastante estudado, e hoje é considerado a
intervenção mais adequada para pessoas
debilitadas e idosas. Analisaremos nesta
oportunidade os aspectos da eficiência e
posteriormente os da segurança.
Do ponto de vista
da aptidão física, o treinamento com pesos
estimula o desenvolvimento da capacidade
contrátil dos músculos esqueléticos, da sua
capacidade metabólica, da flexibilidade
articular, e de adaptações cardiovasculares
necessárias para os esforços curtos repetidos e
relativamente intensos. O desenvolvimento da
força ocorre por aprimoramento neuro-muscular,
na forma de recrutamento de unidades motoras, e
também devido à hipertrofia dos músculos,
estimulada em graus razoáveis até mesmo em
nonagenários. O aprimoramento das capacidades
contrátil e metabólica dos músculos
esqueléticos, o aumento da vascularização
muscular e da capacidade contrátil do coração
induzidas pelo treinamento com pesos determinam
aumento da resistência para os esforços mais
comuns do trabalho e das atividades diárias. A
flexibilidade é estimulada nas pessoas com
limitações articulares pela ação dos exercícios
com pesos no sentido de forçar os limites das
amplitudes, e em todas as pessoas pela
proliferação de tecido conjuntivo que acompanha
a hipertrofia e torna os músculos mais
elásticos. Não ocorre hipertonia em repouso ou
encurtamento nos músculos treinados com pesos
como às vezes se especula.
Se por um lado o
aprimoramento da força e da flexibilidade tem
evidente importância biomecânica, a homeostase
hemodinâmica não tem os seus determinantes tão
claros. Admite-se que as alterações perigosas da
freqüência cardíaca e da pressão arterial
apresentadas por idosos em esforços comuns da
vida diária somente pode ser evitadas com o
aumento da força muscular. O mecanismo envolvido
é a relação direta existente entre o número de
fibras musculares ativadas nas tarefas, a
intensidade do esforço, e as repercussões
hemodinâmicas. Quando uma pessoa aumenta sua
força muscular passa a realizar tarefas
específicas com menor número de fibras.
Conseqüentemente diminui a intensidade do
esforço e também as alterações de freqüência
cardíaca e de pressão arterial. Este mecanismo
não apenas está reconhecido em reabilitação
geriátrica, como também está estimulando estudos
sobre a utilização dos exercícios com pesos em
reabilitação cardíaca. O objetivo da intervenção
neste caso não é fortalecer o órgão, mas
protegê-lo nos esforços da vida diária.
Em paralelo com
os benefícios em aptidão para as tarefas da vida
diária e do trabalho físico, o treinamento com
pesos apresenta outros importantes efeitos do
ponto de vista da saúde, principalmente para
pessoas idosas. Como toda atividade física,
diminui os fatores de risco para doenças
crônicas em geral, incluindo a doença
coronariana. O aumento da força muscular e da
mobilidade articular podem ser decisivos para a
preservação e reabilitação funcional de
articulações com processos degenerativos ou
inflamatórios crônicos. Os mesmo fatores são
fundamentais para evitar quedas nas situações de
desequilíbrio do corpo. Os efeitos profiláticos
e terapêuticos em relação à osteoporose são os
mais eficientes em comparação com qualquer outra
forma de atividade física. Recentemente
documentou-se que em relação à corrida e
natação, apenas o treinamento com pesos pode
evitar a sarcopenia do envelhecimento, cuja
patogenia é o desaparecimento de fibras brancas,
não estimuladas por atividades aeróbias. A
preservação ou aumento da massa muscular durante
o envelhecimento também tem efeitos metabólicos
importantes como a ativação do metabolismo basal
e aumento de tecido captador de glicose, com
relevantes contribuições para o controle da
gordura corporal e para a profilaxia ou
tratamento do diabetes mellitus.
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