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Embora em termos
de saúde pública, em muitos paises, existam
doenças mais importantes do que a osteoporose, é
um fato que considerável parcela da população
dessas nações apresenta ou virá a apresentar
conseqüências mais ou menos graves da diminuição
da massa óssea. Estima-se que nos Estados Unidos
da América do Norte o número de pessoas com
osteoporose esteja entre 15 e 20 milhões,
levando à uma incidência anual média de 1,3
milhões de fraturas, com o custo aproximado de
3,8 bilhões de dólares. A idade crítica para as
mulheres, com relação à osteoporose, é a
menopausa, e para os homens, os 80 anos. A perda
óssea em mulheres começa aos 35 anos e progride
1% ao ano até a menopausa. Nos 4 à 5 anos após o
término das menstruações, as mulheres perdem de
2 à 4 % ao ano, e depois voltam aos níveis de
perda em torno de 1 % ao ano. Nos homens a perda
começa aos 45 anos e é cerca de 0,5 % ao ano,
continuadamente. A importância clínica da
osteoporose está no aumento da incidência de
fraturas. A osteoporose tipo I (pós-menopausa)
manifesta-se com fraturas principalmente de
rádio e vértebras. A osteoporose tipo II (senil)
manifesta-se mais com fratura do colo do fêmur,
em pessoas acima dos 60 anos. Aos 70 anos de
idade, 25 % das mulheres apresentam fraturas de
corpos vertebrais, às vezes assintomáticas.
A massa óssea
depende de fatores genéticos, nutricionais,
hormonais e ambientais, sendo críticos os níveis
de atividade física (Christiansen, 1995;
Johnston, 1995; Kreipe, 1995; Silver & Einhorn,
1995; Zigler et al, 1995). Algumas pessoas,
geralmente mulheres brancas, apresentam
geneticamente poucos receptores para vit. D, o
que leva à absorção intestinal de cálcio
diminuida. Nessas pessoas a ingestão ideal de
cálcio e vit. D pode ser importante para a
manutenção da massa óssea, particularmente das
primeiras duas décadas de vida. Nesse período
atinge-se a máxima massa óssea possivel, que
posteriormente tende a diminuir. Níveis
adequados de atividade física na juventude
também são importantes para que as pessoas
alcancem uma boa massa óssea máxima, que se
admite ser o parâmetro mais importante para se
prever a osteoporose futura. Na meia idade, a
baixa ingestão de cálcio e a falta de atividade
física levam à diminuição progressiva da massa
óssea. Na menopausa o fator crítico é a queda
dos níveis de estrógeno, o que diminui a
absorção intestinal de cálcio e aumenta a
sensibilidade dos ossos à ação de absorção do
paratormônio. Como os homens costumam manter
atividade física de maneira mais consistente do
que as mulheres, e como não há queda abrupta na
produção dos hormônios sexuais, os problemas da
osteoporose aparecem em idade mais avançada no
sexo masculino. Para as mulheres na menopausa, a
maior parte dos estudiosos do tema preconizam
atualmente a reposição hormonal, exercícios
físicos e ingestão adequada de cálcio e vit.D.
Diagnosticada a osteoporose, o tratamento
geralmente inclui drogas como a calcitonina, o
fluoreto de sódio, os bifosfonatos, e outras,
dependendo da condição ser do tipo I ou II.
Como vimos, os
exercícios físicos (Fielding, 1995; Kohrt, 1995;
Lohman et al, 1995; Martin & Houston, 1987;
Smith & Raab, 1986; Stone, 1988) fazem parte
tanto da profilaxia da osteoporose, na juventude
e na idade adulta, como também do tratamento. A
exata maneira pela qual os exercícios físicos
exercem estímulos ao aumento da massa óssea
ainda não está esclarecida. Sabe-se que dois
fatores são importantes: a tensão dada pelo
suporte de cargas e a contração muscular, sendo
o primeiro mais atuante do que o segundo.
Pessoas acamadas que realizavam 4 horas diárias
de exercício intenso em cicloergômetro, deitados
de costas, não conseguiram reverter a perda
óssea da inatividade. Por outro lado, pessoas
nas mesmas condições que conseguiam permanecer
em pé durante 3 horas diárias, impediram a perda
óssea. Estudos com atletas também permitiram
algumas observações importantes: o aumento da
densidade óssea ocorre nas regiões estimuladas
por sobrecarga gravitacional ou por contrações
musculares razoavelmente intensas. Verificou-se
que a natação produz massa óssea ligeiramente
acima do normal, discretamente superada por
"jogging" e caminhadas. Futebolistas e
corredores de velocidade vem a seguir, com maior
massa óssea. Acima desses atletas aparecem os
corredores de longa distância, e com ainda maior
massa óssea, os atletas treinados com pesos. Os
mais altos níveis de densidade óssea ocorrem
entre levantadores de peso. Essas observações
permitem concluir que os efeitos osteogênicos
dos exercícios parecem ser máximos nos esforços
curtos de alta intensidade ou nos esforços
moderados de longa duração. Atividades muito
suaves ou sem ação da gravidade não produzem
aumento significativo de massa óssea. A
possibilidade de que fatores genéticos e
nutricionais fossem variáveis de confusão na
comparação entre atletas e sedentários parece
ser anulada pela observação de que tenistas e
outros atletas com padrão assimétrico de
desempenho, apresentam maior massa óssea no
membro dominante. Tenistas chegam a apresentar
30 % mais espessura na cortical dos ossos do
braço e ante-braço dominantes em relação ao lado
oposto. Maior densidade óssea no ante-braço
ocorre apenas nas atividades que envolvem
esforços intensos com as mãos.
Alguns estudos
permitiram identificar mecanismos pelos quais os
exercícios físicos estimulam o aumento de massa
óssea. O processo de remodelagem do osso ocorre
quando as forças mecânicas dobram ligeiramente o
órgão, produzindo cargas elétricas negativas na
região côncava e positivas na convexa. Cálcio e
fósforo acumulam-se na região côncava e são
reabsorvidos da região convexa. Imagina-se que a
hipertrofia do osso em função do exercício segue
o modelo da hipertrofia muscular: o stress
físico produziria micro-lesões; os osteoclastos
removeriam as estruturas lesadas; os
osteoblastos reporiam matriz calcificada na
área, em maior quantidade do que a removida.
Excesso de destruição levaria ao enfraquecimento
do osso devido à incapacidade dos osteoblastos
repararem as micro-lesões. Tal como em toda
forma de sobrecarga, os níveis de intensidade
para produzir incrementos da função solicitada
são acima dos níveis habituais de homeostase e
abaixo dos níveis de lesão. No músculo
esquelético já se identificou uma substância
mitógena produzida pela lesão celular no
exercício, e que atua no processo de aumento de
massa muscular. Imagina-se que as micro-lesões
da sobrecarga tensional estimule o tecido ósseo
a produzir alguma substância estimulante da
osteogênese. Outra possibilidade é um mecanismo
alternativo ou sinérgico ao anterior, onde se
postula a existência de mecanoreceptores no
osso, regulados por hormônios sexuais, que
transformariam estímulos de tensão em estímulos
bioquímicos para a osteogênese. Sabe-se que os
exercícios funcionam melhor como estimulantes da
osteogênese na presença de hormônios sexuais. Um
aspecto relevante é que os exercícios aumentam
os níveis de hormônios sexuais e hormônio do
crescimento proporcionalmente à sua intensidade.
Os exercícios com pesos são os mais eficientes
para aumentar a massa óssea, e também os que
mais estimulam esses hormônios anabolizantes. A
relação testosterona / cortisol reflete o estado
anabólico e está aumentada significantemente nos
exercícios com pesos, contribuindo para o
aumento da massa muscular e óssea. Excesso de
treinamento produz efeitos contrários.
Similarmente ao aumento da sensibilidade à
insulina produzida pelos exercícios físicos,
imagina-se uma maior sensibilidade do tecido
ósseo aos hormônios estimulantes da
mineralização, induzida particularmente pelos
exercícios com cargas, e provavelmente pelo
mecanismo de aumento numérico de receptores
hormonais.
Atualmente
sabe-se que os exercícios com pesos não são
apenas os mais eficientes para aumentar a massa
óssea, mas também para aumentar a massa e a
força dos músculos esqueléticos. Adicionalmente,
melhoram a flexibilidade e a coordenação,
evitando quedas em pessoas idosas, que poderiam
produzir fraturas em ossos osteoporóticos. Outra
qualidade dos exercícios com pesos que justifica
a sua utilização nas faixas etárias onde a
osteoporose constitui problema, é a sua
segurança. A incidência de lesões é muito
reduzida em função da ausência de choques entre
pessoas, de movimentos violentos, e mínimo risco
de quedas. Também se demonstrou que a segurança
cardiológica nos exercícios com pesos bem
orientados é superior à de exercícios de média
intensidade realizados de maneira contínua, onde
o aumento da freqüência cardíaca pode ser fator
patogênico importante.
Resumindo a
situação dos exercícios físicos em relação à
osteoporose: a sua importância é grande tanto
para a profilaxia quanto para o tratamento dessa
condição. A sua utilização deve ocorrer desde a
infância, nos anos onde se atinge a massa óssea
máxima. Por mecanismos ainda pouco esclarecidos,
os exercícios mais eficientes são os que
implicam em suporte de cargas e contrações
musculares fortes. Dentre esses tipos de
exercícios, os mais seguros e práticos são os
exercícios com pesos.
Bibliografias
recomendadas:
Christiansen C. Osteoporosis: diagnosis and
management today and tomorrow. Bone, 17: 5 Suppl,
513S-516S, 1995.
Fielding RA. The role of progressive
resistance training and nutrition in the
preservation of lean body mass in the elderly. J
Am Coll Nutr, 14:6, 587-94, 1995.
Johston CC Jr, Slemeda CW. Pathogenesis of
osteoporosis. Bone, 17: 2 Suppl, 19S-22S, 1995.
Kohrt WM, Snead DB, Slatopolsky E, et al.
Additive effects of weight-bearing exercise and
estrogen on bone mineral density in older women.
J Bone Miner Res, 10:9, 1303-11, 1995.
Kreipe RE. Bone mineral density in
adolescents. Pediatr Ann, 24: 6, 308-15, 1995.
Lohman T, Going S, Pamenter R, et al. Effects
of resistance training on regional and total
bone mineral density in premenopausal women: a
randomized prospective study. J Bone Miner Res,
10: 7, 1015-24, 1995.
Martin AD, Houston CS. Osteoporosis, calcium
and physical activity. Can Med Assoc J, 135:15,
1987.
Silver JJ, Einhorn TA. Osteoporosis and aging.
Clin Orthop, 316, 10-20, 1995.
Smith EL, Raab DM. Osteoporosis and physical
activity. Acta Med Scand, Suppl. 711: 149-156,
1986.
Stone MH. Implication for connective tissue
and bone alteration resulting from resistance
exercise training. Med Sci Sports Exerc, 20 (5):
S162, 1988.
Ziegler R, Scheidt-Nave C, Scharla S.
Pathophysiology of osteoporosis: unresolved
problems and new insights. J Nutr, 125: 7 Suppl,
2033S-2037S, 1995.
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