|
A primeira
preocupação que este tema sugere é a segurança
do praticante. Todos sabemos que o sistema
locomotor imaturo não está preparado para
grandes esforços, e que o processo de
desenvolvimento geral do organismo pode ser
afetado por atividade física extenuante. No
entanto, outro aspecto a ser analizado, é a
relevância dos possiveis benefícios do
treinamento de força para a criança.
No que diz
respeito à segurança, a literatura apresenta
alguns trabalhos muito bem conduzidos que
estudaram a criança em treinamento com pesos (Falk
& Tenenbaum, 1996; Rians et al, 1987; Risser,
1990; Servedio et al, 1985; Sewall & Micheli,
1990; Webb, 1990). Os exercícios resistidos são
os mais indicados para o treinamento de força, e
dentre êles, os exercícios com pesos são os mais
utilizados em todo o mundo. As barras e halteres
constituem o equipamento convencional da
ginástica com pesos e são os mais usados também
para o treinamento de crianças, visto que os
aparelhos mais elaborados são dimensionados para
pessoas adultas. A conclusão geral da análise
desses trabalhos é que os riscos para a saúde da
criança são mínimos. Isto se deve a que os
exercícios com pesos podem ser facilmente
adaptados às necessidades de cada praticante. A
imagem de uma criança com a respiração bloqueada
empurrando um peso em contração muscular
isométrica não existe no treinamento bem
orientado. Os exercícios são isotônicos, os
movimentos respiratórios são relativamente
livres, as amplitudes dos exercícios adequadas à
flexibilidade do praticante, e as cargas
adequadas à força do indivíduo de tal maneira
que várias repetições sejam possiveis antes da
fadiga muscular. Também não existem acelerações
e desacelerações violentas dos movimentos, não
existem torções dos diversos seguimentos do
corpo em exercício, e a possibilidade de choques
entre praticantes e quedas é inexistente. Assim
sendo, as sobrecargas sobre o aparelho locomotor
são em nível de estímulo ao fortalecimento, com
grande margem de segurança com relação aos
níveis críticos para a integridade dos músculos,
tendões, ligamentos, cartilagens e ossos. As
hipóteses de que os exercícios com pesos
poderiam esmagar ossos, lesar placas de
crescimento e romper estruturas conjuntivas,
provavelmente levantadas a partir de observações
traumatológicas gerais, não foram confirmadas em
trabalho científicos. As sobrecargas para o
sistema cárdio-circulatório nos exercícios
resistidos de alta intensidade são inferiores às
dos exercícios contínuos de média intesidade,
não havendo razões para imaginar efeitos
indesejáveis para crianças em treinamento com
pesos. Estudos com adolescentes hipertensos
documentaram redução da pressão arterial de
repouso. Um aspecto teóricamente favorável em
relação ao treinamento com pesos para crianças é
que os exercícios resistidos estão entre as
atividades físicas que mais estimulam a
liberação do hormônio do crescimento e hormônios
gonadotrópicos pela hipófise. Como em todo tipo
de exercício físico para crianças, é consensual
a prudência com relação ao desgaste excessivo
produzido por grandes volumes de treinamento, o
que teóricamente poderia prejudicar o bom
desenvolvimento do organismo.
Com relação aos
possiveis benefícios do treinamento de força
para crianças, algumas consideraçõe são
importantes. Os exercícios com pesos são de
grande utilidade para adultos, com objetivos
diversos, entre êles: o aumento da massa
muscular e redução da gordura com consequente
modelagem do corpo; o aprimoramento do
desempenho físico visando competições
esportivas; o combate ao sedentarismo e
consequente promoção da saúde geral; lazer e
convivência social; exercícios terapêuticos para
várias afeccões músculo-esqueléticas;
reabilitação física. Poucos desses objetivos são
comuns na infância. Embora a capacidade
contrátil dos músculos seja bastante estimulada
em crianças pelo treinamento com pesos, a massa
muscular aumenta muito pouco. As crianças não
devem ser estimuladas para competições
esportivas e o sedentarismo não é frequente
nessa faixa etária. Terapia física e
reabilitação são situações particulares, e
poucas crianças demonstram interêsse em praticar
exercícios com pesos por lazer. Assim sendo,
entendemos que embora o treinamento com pesos
bem orientado seja bastante seguro para
crianças, não existem razões para que o mesmo
seja estimulado como conduta geral para a
população infantil. No entanto, nos casos de
terapia física, reabilitação e como opção de
atividade física para crianças sedentárias e
geralmente com personalidade introvertida, não
há qualquer razão pela qual os exercícios com
pesos não possam ser utilizados.
Referências bibliográficas:
Falk B, Tenenbaum G. The effectiveness of
resistance training in children. A meta-analysis.
Sports Med, 22:3, 176-86, 1996.
Rians CB, Weltman A, Cahill BR, et al.
Strength training for pré-pubescent males: is it
safe? Am J Sports Med, 15(5):
483-489,1987.
Risser WL. Musculoskeletal injuries caused by
weight training - guidelines for prevention.
Clinical Pediatrics, 29(6):305-310,1990.
Servedio FJ, Bartels RL, Hamlin RL. The
effects of weigth training using Olimpic style
lifts on various physiologic variables in
pré-pubescent boys. Med Sci Sports Exerc,
17: 288, 1985.
Sewall L, Micheli LJ. Strength training for
children J Pediatr Orthop, 6: 143-146,
1986.
Webb DR. Strength training in children and
adolescents. Pediatri Clin North Am,
37(5):1187-1210, 1990.
|