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Durante muitos
anos o treinamento resistido foi considerado de
pouca importância para a cardiologia por várias
razões: os exercícios com pesos eram
considerados pouco eficientes em diminuir os
riscos de doenças cardíacas; também eram
considerados pouco eficientes para aprimorar a
função de bomba do coração e para aumentar a
oxigenação dos tecidos; eram considerados
perigosos devido à aumentar muito a pressão
arterial; imaginava-se que poderia ocorrer
hipertrofia patológica do coração; temia-se que
os praticantes pudessem desenvolver hipertensão
arterial. Esses conceitos eram baseados em
alguns dados concretos e muitas especulações.
Como fatos reais, existiam a comprovação de que
a pressão arterial aumenta muito nos esforços
com cargas máximas, e de que a função de bomba
cardíaca apresenta pouca melhora, assim como o
VO2 máximo, que era considerado um indicador de
oxigenação tecidual e associado com saúde. Os
estudos existentes sobre exercícios há cerca de
vinte ou trinta anos eram quase todos sobre os
efeitos dos exercícios aeróbios, que são
atividades contínuas e suaves. Tais estudos
documentavam muitas qualidades desses exercícios
para a saúde e para o coração. No entanto, a
ausência de citações de efeitos salutares dos
exercícios resistidos na literatura científica
era interpretada como indicativa de que esses
exercícios não possuíam essas qualidades. Na
verdade, os exercícios resistidos não tinham
sido estudados.
Com o passar do tempo, diversos estudos
permitiram esclarecer senão todos, muitos
aspectos relevantes sobre os exercícios de
força. Trabalhos epidemiológicos determinaram
que qualquer tipo de atividade física pode
diminuir a incidência de obesidade, hipertensão,
colesterol elevado, diabetes, todas as
conseqüências da aterosclerose como o infarto
cardíaco, acidente vascular cerebral e
gangrenas, além da osteoporose, sintomas
reumáticos, ansiedade e depressão. As hipóteses
de que os exercícios aeróbios fossem mais
salutares não foi comprovada nesses estudos de
seguimento populacional. O grande vilão a ser
evitado foi identificado nesses estudos: o
sedentarismo. A hipertrofia cardíaca induzida
pelo treinamento com pesos foi considerada
fisiológica, não apresentando qualquer tipo de
intercorrência patológica. Não se encontrou
associação causal entre hipertensão arterial e
treinamento com pesos. O aumento de pressão
arterial durante os exercícios com pesos foi
considerado discreto com cargas sub-máximas.
Mais recentemente, novos dados aumentaram o
interesse pelos exercícios resistidos.
Verificou-se que a perda acentuada de massa
óssea e muscular que acompanha o envelhecimento
sedentário pode ser revertida com muita
eficiência mesmo em pessoas muito idosas por
meio dos exercícios resistidos. A gordura
corporal tende a diminuir com a prática dos
exercícios com pesos, como ocorre com qualquer
tipo de atividade física, desde que haja
controle alimentar. O aumento de força permite
realizar as atividades do trabalho e da vida
diária com menos esforço, diminuindo assim as
alterações de freqüência cardíaca e de pressão
arterial durante as atividades. Todos esses
efeitos, determinados em estudos com pessoas
idosas, chamaram a atenção para sua aplicação em
reabilitação cardíaca, não com o objetivo de
fortalecer o coração, mas de protegê-lo nos
esforços da vida diária. Uma surpresa esperava
os pesquisadores que estudaram os efeitos dos
exercícios resistidos em cardiopatas
coronarianos: não apenas se conseguiam os
efeitos desejados, mas as complicações eram
muito menos freqüentes. Verificou-se que os
exercícios resistidos com cargas pesadas mas sem
chegar na falência muscular são realizados com
baixa freqüência cardíaca, e isto por si já é um
fator de segurança. Mais ainda, verificou-se que
a pressão arterial diastólica mais elevada nos
exercícios resistidos em relação aos aeróbios é
um importante fator para o aumento da oferta de
sangue para o miocárdio. Outro aspecto agora
esclarecido é o da apnéia. Embora cardiopatas
devam interromper a série quando houver
tendência para a apnéia, para evitar um pico
acentuado na pressão arterial, no caso de
pessoas sadias a apnéia representa um fator de
segurança. As pressões intratorácica, abdominal
e céfalo-raquideana elevadas comprimem as
artérias de fora para dentro, equilibrando a
pressão intra-arterial elevada pela isometria.
Desta maneira a pressão transmural é mantida
constante, protegendo as artérias de rupturas, e
explica a pouca freqüência de acidentes
vasculares em trabalhadores braçais que todos os
dias fazem muitos episódios de esforço máximo
isométrico em apnéia.
Atualmente muitos grupos estão estudando os
exercícios resistidos em reabilitação cardíaca e
todos estão chegando às mesmas conclusões com
relação à eficiência e segurança dessa
atividade. Todavia ainda não existem consensos
quanto à melhor programação a ser seguida. O que
parece mais promissor é a utilização de algumas
séries pesadas para cada grupo muscular, duas ou
três vezes por semana, com repetições baixas e
intervalos longos entre séries. Não fosse pela
interrupção da série duas ou três repetições
antes da falência muscular, estaríamos diante de
um programação clássica para hipertrofia
muscular.
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