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Este tema tem
sido tratado de maneira inadequada em nossa
imprensa, com matérias exagerando os riscos do
treinamento com pesos para adolescentes. Desta
maneira, muitos jovens podem estar sendo
afastados de uma atividade física que como
qualquer outra é promotora de saúde e aptidão.
Inicialmente deve
ser esclarecido que os riscos do treinamento com
pesos para crianças e adolescentes já estão bem
estabelecidos em literatura científica e são
menores do que em muitas outras atividades
físicas consideradas seguras. Atualmente não se
admite mais que afirmações e condutas sejam
baseadas em hipóteses teóricas, sem a
preocupação de buscar fundamentação em
resultados de trabalhos científicos, ou pelo
menos nas impressões pessoais de quem tem
experiência na área. Esses resultados ou
impressões são as chamadas "evidências" ou seja,
respostas da natureza que podem indicar com mais
segurança onde está a verdade. Não existem
evidências de que a musculação para adolescentes
seja muito perigosa. Como em toda atividade
física alguns riscos existem, mas são poucos e
facilmente evitáveis.
Uma das
afirmações mais comuns encontradas em
publicações não especializadas é a de que o
desejo dos adolescentes aumentarem a massa
muscular é anormal ou patológico. Não conhecemos
estudos de psicologia que justifiquem essa
afirmação. A impressão de muitos profissionais
envolvidos com jovens praticantes de musculação
é que não existe nada de anormal com esses
adolescentes. Nossa opinião pessoal é de que a
auto-afirmação entre adolescentes é uma
necessidade mais do que um desejo. Nesse
sentido, a única preocupação que os adultos
devem ter com esses jovens é no sentido de
evitar que essa necessidade seja canalizada
exclusivamente para uma área, seja esportiva ou
intelectual, em detrimento de uma formação
global do indivíduo.
O prejuízo ao
crescimento estatural dos adolescentes
praticantes de musculação é freqüentemente
apresentado como um risco do que chamam de
"excesso de musculação". Não há como definir o
que seja "excesso de musculação". O desempenho
atlético em geral parece ser diretamente
proporcional à massa muscular, e para os padrões
estéticos de muitos, quanto mais músculos,
melhor. Na realidade, excesso de treinamento é o
que deve ser evitado. Atividade física excessiva
de qualquer tipo pode diminuir a produção dos
hormônios sexuais, o que é um dos indicadores da
situação conhecida como "over-training". Nessa
situação, o ganho de massa muscular diminui,
pode ocorrer atraso no desenvolvimento das
características sexuais secundárias, mas o que
acontece com o crescimento estatural dos
adolescentes não é conhecido. Uma das
possibilidades é que ocorra um aumento da
estatura, pois os hormônios sexuais fecham as
epífises ósseas. Na musculação, todos os
técnicos e professores bem formados sabem que o
excesso de treinamento deve ser evitado para que
possa ocorrer aumento adequado de massa
muscular. Assim sendo, excesso de treinamento
não é comum na musculação, sendo muito mais
freqüente em outras atividades esportivas ou
mesmo recreacionais.
O treinamento
para hipertrofia também tem sido apontado como
indesejável para adolescentes com a
justificativa de que pode produzir lesões ou
mesmo doenças. No entanto, não há evidências de
que o treinamento para hipertrofia esteja
associado com prejuízos para a saúde. A
tendência atual é utilizar treinamento para
hipertrofia para todos os objetivos da
musculação. Força, potência e resistência
musculares são qualidades de aptidão
inseparáveis do aumento em volume dos músculos
esqueléticos. O aumento da taxa metabólica e uma
melhor capacidade homeostática bioquímica
dependem diretamente da massa muscular. Os
exercícios com baixas repetições oferecem a
melhor associação de qualidades possíveis de
serem estimuladas pela musculação, além de maior
segurança cardiovascular. Por essas razões,
pessoas idosas, debilitadas e convalescentes
estão atualmente sendo orientadas em treinamento
para hipertrofia. Não há evidências sugestivas e
não é sensato imaginar que adolescentes não
possam fazer o que fazem os idosos.
Algumas lesões
podem ocorrer na prática da musculação, mas não
são freqüentes. Nos EEUU, onde 45 milhões de
pessoas se exercitam regularmente com pesos,
menos de 1% das consultas médicas em serviços de
emergência são devidas a lesões em treinamento
com pesos. Além disto, a maioria das lesões
ocorrem nos levantamentos de peso competitivos e
não no treinamento com pesos. Lesões graves das
epífises ósseas e fraturas são muito raras.
Estatísticas mostram que lesões como as
distensões de músculos e ligamentos podem ser
precipitadas pelo uso de cargas excessivas,
treinamento mal orientado e equipamento mal
projetado. Cargas excessivas em musculação são
aquelas que impedem a execução correta dos
movimentos, sendo a sua utilização um erro
técnico primário, detectado por qualquer
instrutor. Ao contrário, esforços excessivos são
freqüentes e inevitáveis em atividades como o
futebol e outros jogos com bola. Tais esforços
produzem as mesmas lesões encontradas na
musculação, com muito mais freqüência, e a mídia
não parece estar preocupada com elas.
Praticantes de
todas as modalidades esportivas também costumam
freqüentar academias de musculação, e se muitos
deles apresentam lesões, isto não significa que
tais lesões tenham sido produzidas pelo
treinamento com pesos. Na verdade, o treinamento
com pesos pode ser terapêutico para muitas
lesões esportivas, e também profilático.
Esportistas em geral, incluindo crianças,
apresentam menor incidência de lesões em suas
modalidades quando estão protegidos pelo
fortalecimento muscular induzido pelo
treinamento com pesos. A elasticidade dos
músculos submetidos ao treinamento para
hipertrofia aumenta, ao contrário de afirmações
que às vezes encontramos, e não há evidências de
que as articulações possam ser prejudicadas por
qualquer mecanismo. Os tendões são fortalecidos
pelo treinamento para hipertrofia, e as rupturas
às vezes apresentadas por atletas em esforço
máximo são, provavelmente, devidas ao uso de
anabolizantes. Também não existe a mais remota
evidência de que lesões cardíacas possam ser
atribuídas ao treinamento com pesos, com ou sem
excessos.
Outro erro comum
é confundir suplementos alimentares com drogas
anabolizantes, ou imaginar que a utilização de
suplementos possa ser o primeiro passo em
direção às drogas. A impressão da maioria dos
profissionais envolvidos nessa questão é que os
suplementos podem afastar os praticantes das
drogas, por satisfazerem a necessidade
psicológica que algumas pessoas têm de utilizar
algum "aditivo" ao treinamento. Esses produtos
são alimentos industrializados que têm a
qualidade de trazer praticidade para a
alimentação dos esportistas, embora as suas
apresentações em pó, comprimidos, líquidos
concentrados ou cápsulas lembrem remédios. Não
existem evidências de prejuízos reais à saúde
decorrentes do uso sensato de suplementos
alimentares.
O maior risco
para a saúde dos esportistas em geral é a
tentação do uso de drogas que possam favorecer o
desempenho ou os resultados do treinamento.
Entre essas, as mais utilizadas são os
esteróides ou andrógenos anabolizantes. Entre
seus efeitos estão a hipertensão arterial,
dislipidemia, aterosclerose, tromboses, infartos
cardíacos, acidentes vasculares cerebrais,
hemorragias digestivas, gangrenas, esterilidade,
hipogonadismo, hepatite, degeneração hepática,
estímulo para alguns tipos de tumores,
agressividade excessiva e depressão grave. Fato
inegável é que muitos praticantes de musculação
são usuários dessas drogas, mas deve ser
lembrado que em outras áreas esportivas os
mesmos produtos são amplamente utilizados.
Apesar disto, não se pode condenar o esporte em
função de que muitos de seus adeptos utilizam
drogas. Também muitos são os exemplos de homens
e mulheres que redefiniram suas vidas no sentido
da saúde em função da prática esportiva. Todos
os setores da nossa sociedade estão permeados
pela utilização de drogas em geral, seja por
razões de estímulo para produção artística e
intelectual, desempenho físico ou simplesmente
prazer. Esse panorama inclui o tabaco e o
álcool, responsáveis por muitas doenças, mortes
e dramas sócio-familiares.
As drogas
constituem hoje uma das mais sérias ameaças à
saúde das pessoas, e nesse sentido, a promoção
de um estilo de vida saudável pode ter efeito
antagônico ao problema. A musculação tem a
qualidade de cativar as pessoas, e a
adolescência é uma época em que as experiências
de vida são particularmente marcantes. Assim
sendo, desestimular os jovens da prática da
musculação pode significar a perda de uma forte
motivação para o caminho da saúde física e
mental.
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