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Bebendo demais?
Leia -
depois da ressaca - a matéria abaixo
por Maria Tereza Gomes
Considerando que o álcool existe há 7.000 anos ou mais, e que
os historiadores acham que a bebida pode ter sido inventada antes que
o pão, e que há 3.500 anos os chineses bebiam para afogar a
melancolia, e que hoje só 30% da população adulta é abstêmia, é
absolutamente espantosa a ignorância e a confusão que se faz em
relação ao álcool.
No anos
70 era charmoso ser fotografado com um copo na mão. "A humanidade está
três copos de uísque atrasada", disse Humphrey Bogart, um dos nomes
hollywoodianos que emprestaram seu charme à bebida e que morreu devido
ao excesso da própria. Atualmente você pode beber água mineral numa
festa e ninguém vai se preocupar com isso. Por outro lado, pedir vinho
num almoço de negócios pode até ser chique. Mas vodca, desculpe amigo,
pode denunciar que você já não consegue viver sem um trago.
É difícil
falar de alcoolismo sem parecer um sermão dos Alcoólicos Anônimos. Mas
nem os médicos conseguem fugir desse discurso. "O álcool é a pior das
drogas porque é aceito socialmente", diz o psiquiatra Arthur Guerra de
Andrade, coordenador-geral do Instituto de Psiquiatria da USP e membro
da diretoria do Conselho Internacional sobre Alcoolismo e
Drogadependêneia, com sede na Suíça. Há um consenso generalizado de
que o alcoolismo só atinge aquele coitado que mora debaixo dos
viadutos e toma pinga para esquecer os problemas ou aquecer os ossos.
Saiba que se você vai todos os dias para o happy hour corre o mesmo
risco que ele.
Uma
observação à sua volta e você descobrirá que boa educação, uma bela
conta bancária e uma carreira espetacular não oferecem imunidade
contra os perigos do álcool.
Se isso o
assustou, responda às perguntas a seguir e faça seu próprio
diagnóstico. Alguma vez você sentiu que deveria diminuir a quantidade
de bebida ou parar de beber? As pessoas criticam o seu modo de beber?
Você se sente culpado, chateado, pela maneira como costuma beber? Você
costuma beber de manhã para diminuir o nervosismo ou a ressaca? Com
duas ou mais respostas positivas, cuidado. Você já pode ser um
alcoólatra. Há 20 anos, com um diagnóstico positivo, você seria
tratado como irresponsável, desequilibrado, uma pessoa de
personalidade fraca. Os estudos atuais mostram que não há relação
entre alcoolismo e personalidade. A Organização Mundial de Saúde o
classifica como uma doença crônica, progressiva e potencialmente
fatal.
VEXAMES
Considerar o alcoolismo como doença já foi
um avanço. Mas para a medicina ainda se trata de uma doença obscura.
Os pesquisadores até hoje não sabem por que algumas pessoas têm mais
vontade de beber do que outras. Nenhum especialista vai dizer a você
qual é o limite, quanto beber sem ser tecnicamente qualificado como
uma pessoa com problemas. O único juiz, dirão eles, capaz de saber se
você virou um alcoólatra é você mesmo. Ai é que está o problema. Os
alcoólatras são mestres em despistar, em geral são os últimos a
admitir o problema. A mulher está ameaçando ir embora, o carro está na
oficina por causa de uma batida na saída do bar, mas ele continua
afirmando que tem o controle, que pode parar a qualquer hora. Numa
definição simplista, se o álcool está causando problemas e você
continua bebendo mesmo assim, é melhor pedir ajuda.
"Durante
reuniões com clientes, eu ia tomar o cafezinho na copa para que eles
não percebessem minhas mãos tremendo", diz um publicitário paulistano
que agora está longe do álcool, depois de 30 anos como um consumidor
voraz de uísque. O trabalho é o último lugar onde você se denunciará.
Por variados motivos, os primeiros indicadores aparecem fora da
empresa: safanões na mulher, cair no sono e ignorar as crianças,
acidentes de carro, impotência. Há poucas coisas mais românticas do
que um jantar à luz de velas regado a vinho. O álcool desinibe, as
pessoas riem mais facilmente, deixam a autocensura de lado. O problema
é que a longo prazo, ao contrário do que diz a crença popular, o
álcool deixa de ser afrodisíaco. William Shakespeare já sabia disso em
1605, quando escreveu Macbeth Veja parte de um diálogo do segundo ato:
"—Macduff: Quais as três coisas que a bebida provoca?
Porter:
Ora essa, senhor, vermelhidão no nariz, sono e urina. Luxúria, senhor,
ela provoca e não provoca. Provoca o desejo, mas dificulta a
execução..."
Muito
cuidado com as definições do que é um drinque. Os especialistas não
definem um drinque como um copo cheio de água com uísque. Um drinque é
0,028 litro, ou duas colheres de sopa de álcool etílico. Tanto faz se
o álcool está na cerveja, no vinho ou no licor. O que varia é o teor
alcoólico da bebida. Uma dose de uísque, vodca, conhaque ou licor tem
entre 40% e 50% de álcool. Os vinhos, de 13% a 20%. As cervejas, 9%.
Um dos grandes charmes da bebida é que ela é um excelente relaxante
muscular. Se você está tenso depois de um dia de trabalho duro, que
terminou com um congestionamento a caminho de casa, uma ou duas doses
podem cair bem. Quantidades maiores não farão muito mais por seus
músculos. "Não há nada de errado no hábito de tomar uma dose de uísque
todo dia ao chegar em casa ou um porre de vez em quando", diz o
neurocirurgião Antônio Flávio Yunes Salles, do Hospital 9 de Julho, em
São Paulo. O problema, segundo todos os especialistas, está nas
pessoas que precisam aumentar a quantidade de álcool para sentir o
mesmo efeito. Salles é especialista na parte do corpo mais afetada
pelo álcool, o sistema nervoso central. "O alcoolismo crônico lesa o
cérebro de maneira irreversível", diz ele. "O cérebro de um homem de
35 anos que bebe intensamente desde os 18 tem o mesmo nível de atrofia
que o de uma pessoa de 70 anos."
Se dois
drinques por dia são toleráveis, três ou quatro farão você cochilar,
ficar sentimental e engordar (vodca e sorvete têm igual número de
calorias). Se você já chegou a cinco drinques num dia, pelo menos uma
vez por semana, está entrando na categoria dos bebedores freqüentes.
Nesse estágio, provavelmente você já esteja precisando de carona para
casa. Oito drinques, uma vez por semana, é muito sério. Como bebedor
pesado, você está sujeito a acidentes de carro e a dar vexames em
público.
Por uma
razão desconhecida pelos pesquisadores, nem todos que bebem viram
alcoólatras. Nove em cada 10 pessoas podem beber sem ficar
dependentes. A experiência dos consultórios de psiquiatras e outros
médicos é o oposto do que você está acostumado a ouvir. As pessoas com
mais tolerância ao álcool são as que mais têm problemas com ele. Em
outras palavras, se você é aquele que bebe igual aos amigos, mas não
fica de porre nem de ressaca no dia seguinte, atenção. O seu amigo sai
na sexta, bebe todas, fica de ressaca e, provavelmente, vai tomar
refrigerante nos dias seguintes. Você, que tem um fígado
espantosamente forte, ao contrário, vai estar ótimo, preparado para um
novo porre. A ação inicialmente invisível do álcool vai continuar.
"Eu tomei
o primeiro porre aos 15 anos. Eu lembro que foi uma sensação
maravilhosa. Na faculdade eu bebia todas as noites, antes, depois e às
vezes durante as aulas. Nesse período eu me sentia o máximo, fazia o
maior sucesso. Aos 28 anos, eu era superintendente de marketing de uma
grande empresa brasileira, e tomava quatro vodcas no almoço. Eu
costumava sair do escritório no meio da tarde e ir ao bar da esquina
para uma cerveja. À noite, a bebedeira ia até de madrugada. Com 34
anos, eu tinha que beber de manhã".
Hugo L.
(como todos os membros dos Alcoólicos Anônimos, ele não se identifica
com o nome completo) fez três faculdades, fala alemão, francês e
italiano e tinha uma memória fotográfica. Uma das lesões que o álcool
provocou em seu cérebro foi a perda da memória privilegiada. Seu caso
é exemplar para mostrar a ação lenta e cruel do álcool. Hugo tinha uma
alta tolerância no começo. "A bebida servia para eu ficar legal, para
fechar negócios, para cantar uma garota", diz Hugo. Os problemas só
começaram a aparecer aos 28 anos, 13 depois do primeiro gole. Nessa
época, Hugo tinha amnésia alcoólica. Algumas noites inteiras de sua
vida jamais poderão ser lembradas, simplesmente porque o cérebro não
as registrou. Numa dessas noites, Hugo antecipou num boteco todo o
planejamento de marketing de sua empresa. Nem todos os que estavam à
mesa eram seus amigos e os planos foram parar na concorrência.
BOBAGENS
Nunca mais Hugo vai olhar para uma garrafa
de uísque com naturalidade. O temor de fraquejar é constante. Se tomar
uma só gota, segundo os médicos, ele e todos os outros que deixam de
beber voltam à fase mais crítica do alcoolismo em duas semanas. Um
típico homem alcoólatra começa a beber pesado na adolescência aumenta
as doses a partir dos 20 anos e vai ter sérios problemas nos 30. A
primeira crise com hospitalização vem logo a seguir, mas só a partir
dos 40 anos ele se identificará como alcoólatra—uma pessoa que não
pode beber sem problemas. Executivos são muito espertos para esconder
isso. Poucos retornam do almoço tropeçando na mobília. "O impacto não
é tanto na qualidade, mas na quantidade do trabalho", diz Laura
Altman, da consultoria Towers Perrin, nos Estados Unidos, citada pela
revista Fortune, numa reportagem sobre alcoolismo. "Pessoas que bebem
durante o expediente examinam detalhadamente seu trabalho, tentando
eliminar erros que os prejudicarão depois."
Isso,
claro, depende da fase do alcoolismo em que a pessoa se encontra.
Aquele que bebe antes de reuniões para não tremer diante dos outros
pode fazer bobagens por não estar sóbrio. Drew Lewis, ex-chairman e
CEO da Union Pacific, a maior empresa férrea dos Estados Unidos, fez
isso. Em 1994, durante uma reunião em que discutia o valor de uma
companhia que a Union pretendia adquirir, Lewis exorbitou seus
poderes. Como não conseguia fechar o negócio por 17,50 dólares a ação,
ele propôs 20 por ação. O novo preço era novidade até para seus
superiores. Depois da reunião, Lewis admitiu que tinha problemas com
bebida e se internou para um tratamento de cinco semanas. A Union teve
de se explicar e retomar as negociações a 17,50. Lewis manteve-se no
cargo até janeiro deste ano, quando se aposentou, aos 65 anos.
Qual é o
momento de cortar ou desistir da bebida? Os Alcoólicos Anônimos
sugerem um teste considerado infalível por quem já bebeu. Durante pelo
menos três meses tente beber diariamente um número fixo de drinques,
desde que não seja mais do que três. É preciso beber a mesma
quantidade todos os dias, de preferência no mesmo horário. Não arrume
desculpas, como casamentos, funerais, ganhar na loteria ou uma
promoção para exceder o limite. Uma só exceção e você terá falhado no
teste. Segundo os membros dos AA são raros os alcoólatras que
conseguirão ir até o fim. Não tente parar de beber por certa
temporada. Segundo os especialistas, até os dependentes mais avançados
conseguem se abster da bebida por períodos consideráveis. A idéia é a
seguinte: pessoas com sérios problemas de bebida não se controlam uma
vez que começam a beber.
Se você
acha que seu problema não é alcoolismo, mas ataca um uísque antes
mesmo de afrouxar o nó da gravata, mude sua rotina. Não fique perto do
bar roendo as unhas. Vá brincar com as crianças ou passear com o
cachorro. Faça alguma coisa para tirar sua atenção da bebida. Não use
o uísque como único método de relaxamento. Se o seu caso é mais
avançado, se você realmente não consegue ficar sem a bebida, é preciso
buscar tratamento. Não há um consenso sobre a melhor maneira de
conseguir parar. Muitas pessoas param sozinhas. Outras vão a clínicas
especializadas ou se unem a grupos como os Alcoólicos Anônimos.
Nenhuma técnica garante sucesso. Um estudo americano, citado pela
Fortune, descobriu que um ano após o tratamento um terço ainda estava
em abstinência, um terço só reduziu o consumo e os demais estavam
bebendo ainda mais do que antes. Os AA ajudam as pessoas a admitirem
seu problema e também dão o apoio grupal de que muitas delas precisam.
"O
alcoolismo é doença e nada tem a ver com mau-caráter, com falta de
educação, ou com qualquer comportamento suscetível de punição", diz o
psiquiatra José Roberto Albuquerque Fortes, professor emérito da USP,
co-autor do livro Alcoolismo-Diagnóstico e Tratamento. É uma doença
com repercussões graves no organismo. O álcool compromete severamente
0 fígado, pâncreas, coração, aparelho digestivo, rins, aparelho
respiratório e sistema nervoso central. Mas o álcool também é fonte de
energia Em pequenas quantidades, a pessoa até trabalha mais. Como
entorpece levemente a consciência, também pode provocar a sensação de
ausência de fadiga muscular. A quantidade e a freqüência com que você
vai beber é o que importa. Não precisa suspender a cerveja com os
amigos, as festas e o happy hour. Apenas preste atenção à sua rotina
com bebidas antes que o álcool vire seu inimigo íntimo.