::: DOSE FATAL dura volta à superfície

por Maria da Paz Trefault

O alcoolismo atinge cerca de 12% da população mundial e causa compulsão e perda de controle.
Quem sobreviveu, lembra-se do inferno. De um tempo sem cor, angustiante, em que os dias se sucediam inexoráveis e vazios. Da euforia social da bebida à solidão do alcoolismo, porém, o mergulho é lento. Às vezes, quase imperceptível. Por que para algumas pessoas o prazer se transforma em agonia? Existe um alcoolismo ou existem vários? Essas são perguntas que mesmo os especialistas respondem apenas parcialmente. A Organização Mundial de Saúde considera que entre 10% e 12% da população mundial é dependente do álcool. No Brasil, o último levantamento feito em São Paulo, Brasília e Porto Alegre, no início da década de 90, projeta essa estimativa para 15%. Pior: entre os homens, o alcoolismo é o principal problema na área de saúde mental.

De vagabundos a pacientes.
Até onde a investigação histórica é capaz de retroceder, parece certo que no neolítico, entre 10 mil e 8 mil a.C., o homem já produzia bebidas. Enquanto a humanidade se divertia em memoráveis farras etílicas, desde os tempos de Hipócrates, o pai da medicina, há relatos descrevendo os danos causados no organismo pelo excesso de álcool. O termo alcoolismo começou a ser usado no final do século passado, mas o divisor de águas no entendimento do assunto foi a publicação do livro The Disease Concept of Alcoholism, na década de 60. O autor, o médico norte-americano Jellinek, propunha a classificação do alcoolismo como uma doença, caracterizada pela "compulsão e pela perda de controle" Até então, atribuíam-se ao alcoólatra apenas distúrbios de caráter e fraquezas morais. A extensão desse debate fez com que, ainda nos anos 60, o alcoolismo passasse a ser considerado doença - com diagnóstico e sintomas universais - pela Organização Mundial de Saúde. Foi uma virada histórica, que livrou os bêbados da pecha de vagabundos, fazendo-os ingressar como pacientes no ramo da medicina.

Hoje, para diagnosticar o alcoolismo, não se fala mais em quantidade consumida nem em freqüência. A idéia popular de que bebe demais quem tem problemas, possui o mesmo respaldo científico da quiromancia. Problemas, todos temos e um alcoolista pode beber apenas uma vez por semana, enquanto um bebedor social pode até fazer uso diário do álcool. Na fronteira que separa bebedores sociais e alcoólatras é preciso trilhar um caminho onde há duas vertentes: os problemas causados pelo álcool e a dependência. Teoricamente, somos todos bebedores sociais. Até porque o último desejo do alcoólatra é assumir-se como tal. Mas o que caracteriza o bebedor social é a ausência total de problemas decorrentes do consumo de álcool. Num outro estágio, nitidamente diverso, está o bebedor-problema, aquele que não é dependente, mas passa a ter problemas causados pelo álcool: bate o carro, entra em conflitos familiares, deixa compromissos de lado para beber ou se recuperar dos efeitos da bebida. O alcoolismo é a etapa final do percurso, quando, além dos problemas causados pela bebida, há um quadro de dependência física e psicológica. O complicado nessa fase é que os problemas são cada vez maiores e o álcool passa a ser insuficiente para dar conta deles, o que leva a um aumento de consumo quase obrigatório, explica o psiquiatra Arthur Guerra de Andrade, coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. "O sonho de todo alcoólatra é voltar a ser um bebedor social’, diz Guerra. "Mas nunca vi isso acontecer." E, apesar de considerar a opção monótona, o médico só vê uma saída para o problema: "A única possibilidade de recuperação é a abstinência total"

Herança biológica.
Essa visão, compartilhada pelos Alcoólicos Anônimos, uma organização internacional fundada em 1935, não deixa de ser polêmica. Propostas de tratamento alternativas existem várias, até porque, em geral, nenhuma funciona. Nenhum modelo - além da abstinência - deu certo o suficiente para que pudesse ser recomendado em termos globais. Há clínicas psiquiátricas que funcionam como presídios, fazendas de retiro, comunidades terapêuticas e uma vasta gama de picaretagens. Ficar sem beber num hospital aparentemente é fácil. Mas também é constante o numero de denúncias sobre clínicas caríssimas, onde a única coisa barata é a filosofia. Nelas, o álcool é moeda corrente, e os internos chegam a sair mais bêbados do que entraram. No Hospital das Clínicas, o trabalho gratuito feito pelo GREA com equipes multidisciplinares só recomenda a internação em último caso, quando há complicações clínicas graves ou não há resposta ao tratamento ambulatorial. Mesmo assim, 50% dos pacientes abandonam o tratamento depois de três meses. Se isso não significa que houve recaída, de qualquer forma a estatística é pouco entusiasta.

Entre as causas do alcoolismo, há três fatores em jogo: genéticos, psicológicos e sociais. Se a herança biológica é fundamental, a facilidade de acesso à droga também conta. Assim como os filhos de alcoólatras têm grande chance de desenvolver a doença, a mesma possibilidade existe em profissões de alto risco, em que há cobrança muito alta de responsabilidade e ambientes de estresse físico ou psicológico. Mas o ponto de partida para tudo é o prazer causado pelo álcool em determinadas pessoas. O que se conhece hoje como base biológica do alcoolismo é resultante de estudos feitos em laboratório, com ratos e camundongos. Através deles, os cientistas procuram desvendar que percurso o álcool trilha no organismo e como se desenvolve no cérebro a sensação do prazer. Aí, entram na roda até diferenças raciais: 40% dos orientais, 10% dos brancos, especialmente os caucasianos, e 30% a 40% dos índios, em tese, estariam protegidos da doença. É que eles possuem uma deficiência da enzima álcool-desidrogenase, responsável pelo metabolismo do álcool. Neles, os sintomas desagradáveis aparecem antes de qualquer outro, antes mesmo do prazer, o que os deixa a salvo do consumo progressivo.

Mulheres.
Se até agora o alcoolismo se revelava uma doença tipicamente masculina, o que chama atenção nos últimos tempos é 0 número crescente de mulheres em busca de auxílio. O Programa de Atendimento à Mulher Dependente Química (Promud), serviço recém-criado no Hospital das Clínicas em São Paulo, recebeu 16 pacientes nos dois primeiros meses de funcionamento experimental. Das 16,10 eram dependentes de álcool. Em 1989, quando procurou estudar a doença na população feminina, a psiquiatra Patrícia Hochgraf não tinha dados para pesquisa, pois as muIheres - simplesmente - não procuravam tratamento. Não existem elementos precisos, porém, para afirmar que o alcoolismo feminino está aumentando. A mudança pode ser um sinal de que a vergonha e o medo de se expor estão diminuindo. Uma hipótese de alguma forma duvidosa, já que estudos recentes norte-americanos provam que o preconceito é tal que as próprias alcoolistas acham muito pior e mais condenável a embriaguez feminina.

Independentemente de qualquer ideologia, em termos de bebida, as mulheres são mesmo o sexo frágil. Começam a beber mais tarde, aumentam o padrão de consumo por volta dos 32 anos e procuram ajuda na mesma faixa etária do que os homens: em torno dos 40. De um modo geral, a mulher tem menos peso, mais quantidade de gordura e menos água corpórea do que o homem. Fatores que levam a uma assimilação desigual, fazendo com que a mesma quantidade de bebida compartilhada provoque nela uma concentração de álcool maior. Está provado que a mulher absorve 30% mais álcool do que o homem. Mas não é só por isso que ela se embriaga mais rapidamente: também possui em menor quantidade a enzima que metaboliza a substancia. Embora seja discutível, considera-se que a questão hormonal pode ser mais um elemento nessa diferença, pois em alguns períodos a vulnerabilidade ao consumo de bebidas é maior em decorrência do ciclo menstrual.

Sucesso e fracasso.
Companheiro inseparável do homem em sua trajetória ao longo das civilizações, o álcool é - de longe - a droga mais consumida. Exceto em alguns países do mundo árabe, onde são proibidas pela religião, as bebidas alcoólicas fazem parte da tradição, da cultura e temperam relações nas mais diferentes estruturas sociais. Dos índios da Amazônia aos empresários da Austrália, o prazer da bebida existe em todos os continentes, bem antes que se falasse em Novo ou em Velho Mundo. Até em períodos de Lei Seca, como o que ocorreu neste século nos Estados Unidos, o consumo de álcool continua: apenas se submete às regras da clandestinidade e do mercado negro.

Sucesso e fracasso em si nunca foram motivos suficientes para beber ou deixar de beber.

Hollywood está repleta de exemplos, na tela e na vida real. O estereótipo da decadência não fazia parte do cotidiano de Marilyn Monroe, quando conquistava platéias no mundo inteiro como o maior símbolo sexual de todos os tempos. Não obstante, estava entre seus hábitos pedir com freqüência uma dose de gim, no café da manhã. Como explicar? A escritora francesa Marguerite Duras no romance autobiográfico O Amante, diz que, nela, "o álcool desempenhou a função que Deus não exerceu, a função de matar". A explicação é poética, mas não suficiente. No meio político, o consumo de álcool per capita costuma ser elevado.

Todo país tem figuras de destaque que, entre outros méritos ou pela falta deles, se notabilizaram por alguns copos a mais. O Brasil teve Jânio Quadros. Nada que se compare ao presidente russo, Boris Yeltsin, amante inveterado da vodca, com um vasto currículo de vexames públicos.

Desleixo profissional.
Mesmo quando não leva à dependência, o uso abusivo do álcool produz efeitos devastadores. trabalhos desenvolvidos em hospitais gerais de várias regiões do País, pelo Ministério da Saúde, revelam que de 9% a 32% dos leitos são ocupados por pessoas que bebem em excesso. Muitas vezes os pacientes procuram clínicos com queixas vagas e recebem tratamento para outros males. A lista de doenças físicas e psicológicas diretamente causadas pelo álcool é grande, mas o alcoolismo poucas vezes é investigado. Atrás disso está o desleixo de profissionais de saúde e o estigma que pesa sobre a doença.

Ele é de tal ordem que, recentemente, foi usado para censurar o livro Estrela Solitária, uma biografia de Garrincha, escrita pelo jornalista Ruy Castro. O livro ficou um ano proibido com o argumento de que tratava Garrincha como bêbado. Segundo o escritor, a história se resume à ganância de um "advogado oportunista", que quis pegar uma carona no sucesso da obra.

"Tratei a questão com a seriedade que merece", afirma o autor. "O que pouca gente percebeu é que é um livro sobre alcoolismo e não sobre futebol." O alcoolismo de Garrincha, de fato, era público e notório. Destruiu a vida de um grande jogador, como destrói a de tantos anônimos.

"O sonho de todo alcoólatra é voltar a ser um bebedor social.
Mas, pessoalmente, nunca vi isso acontecer"

Dr. Arthur Guerra de Antrade