::: DEPENDÊNCIA DO ÁLCOOL: a doença da mentira
baseado
em texto de Arthur Guerra de Andrade
O que
leva uma pessoa a se tornar dependente do álcool?
Até o
momento são conhecidos três tipos de bebedores: o social, ou moderado,
aquele que bebe por prazer; o segundo caso é o "bebedor problema",
bebe sempre e começa a ter problemas sociais, especialmente no
trabalho e na família, chega atrasado, bate o carro e sente remorso
depois do porre, mas se vai ao médico e este recomenda que pare de
beber, ele pára, pois não apresenta quadro de dependência. O terceiro
tipo é o alcoólatra mesmo. Não consegue mais ficar sem bebida, não
bebe por prazer, mas para evitar o desprazer que a falta do álcool
provoca como: insônia, irritabilidade, ansiedade, tremedeira e
incapacidade de executar tarefas de rotina. Se não beber sente-se
impotente. Além disso, o organismo fica comprometido e a pessoa
sente-se mal quando não bebe.
Segundo o
psiquiatra Arthur Guerra, coordenador do GREA (Grupo Interdisciplinar
de Estudos do Álcool e Outras Drogas, do Hospital das Clínicas da
USP), os homens levam de 12 a 15 anos para apresentar quadro clínico
de alcoolismo. Já as mulheres, para alcançar o mesmo grau de
dependência levam menos tempo, de 7 a 10 anos.
Guerra
ainda acrescenta que não resolve ficar tentando entender o que levou o
paciente a ser alcoolista, é preciso tratar a doença e suas
consequências, o que só é possível com uma reunião de recursos
terapêuticos, como medicamentos, psicoterapia, grupos de ajuda como os
Alcoólicos Anônimos e a ajuda da família. Durante o tratamento, o
paciente tem que abster de todo tipo de álcool, até mesmo dos pratos
feitos com vinho ou rum, bombons recheados de licor e outros.
Se o
estágio já for muito avançado, o paciente começa a ficar agressivo, a
ouvir vozes e enxergar bichos, a saída é a internação, que serve para
desintoxicar e motivar o paciente a prolongar o tratamento. Há casos
de pessoas que quando saem da internação nunca mais bebem, outros
voltam a beber um mês depois e outros "comemoram" a saída da clínica
logo no caminho para casa.
De acordo
com as estimativas americanas, cerca de 15% da população do Brasil é
alcoolista. Dos que procuram atendimento médico, só 40% se recuperam,
e dos pacientes que frequentam grupos de ajuda (A.A.) 20% deixam de
beber.
Para o
psiquiatra Arthur Guerra, os medicamentos são armas poderosas para
quem quer parar de beber, mas dev3em ser usados em meio a um contexto
terapêutico. A mistura do remédio com álcool pode causar prejuízos a
curto, médio e longo prazo. Pode matar imediatamente, pode colocar a
pessoa em situações de risco, ou ainda causar dependência física.
Cresce
o número de mulheres alcoólatras
Tanto em hospitais públicos
quanto em consultórios, a procura de tratamento de alcoolismo por
mulheres tem aumentado consideravelmente. Na opinião do psiquiatra
Artur Guerra, isso é resultado do acúmulo de responsabilidades que as
mulheres hoje têm. "Além de gerenciar todo o trabalho doméstico, que
ainda é tarefa da mulher, ela tem a competição social. Tem que
conciliar trabalho, filhos, estudos, marido e outras atividades, e
quando não dá conta do tudo ainda sofre críticas".
Depois os
filhos crescem e vão embora, o marido passa o dia todo fora de casa,
ela envelhece e sente-se sozinha, "é a síndrome do ninho vazio", e
começa a beber. Normalmente bebem sozinhas e escondidas, com
frequência e em grande quantidade. A dependência total ocorre depois
de 7 anos mais ou menos, e nas mulheres o alcoolismo sempre vem
associado a um quadro depressivo.
Álcool, o companheiro dos estressados
Os americanos
descobriram que em algumas profissões - jornalistas, carteiros,
policiais, garçons e pintores de parede - são mais frenqüentes os
casos de alcoolismo ou abuso do álcool. Este estudo foi feito em São
Francisco (EUA) há mais de dez anso, e porvou que o alcoolismo não
depende exclusivamente de um fator genético para ser desencadeado. Há
outros fatores de risco, e um deles está ligado ao ambiente
profissional.
Pesquisa
do americano Harrison Trice, porfessor da Escola de Relações do
Trabalho do estado de Nova Iorque, enumera algumas situações de risco.
A primeira seria a alienação gerada por certos trabalhos. Esta
alienação é comum tanto entre operários da linha de pordução como
entre controladores de vôo, e estaria relacionada com a falta de
controle que o profissional tem do porduto final de seu trabalho. Um
segundo fator seria o estresse que pode levar ao consumo de bebida
como forma de compensar o cansaço.
O médico
Artur Guerra já observou que profissões como a de jornalista e
operador de bolsa parecem peculiarmente permeáveis ao alcoolismo.
Pode-se identificar, nestas profissões, dois fatores de risco
descritos por Trice: o estresse e a cultura do álcool. "São empregos
que têm um pico de tensão numa determinada hora do dia. O estresse é
seguido de uma espécie de ritual de celebração", diz.