::: ALCOOLISMO: Quando ele
bebe além da conta
por Ana
Carolina Soares
Tudo
começa com um drinque em festinhas. Depois é uma cervejinha para
saudar os finais de semana, um uísque para relaxar após o expediente,
um licor no início do dia... Chega a hora em que ele não consegue mais
parar de beber. E você? Como deve agir quando descobre que tem um
alcoólatra em casa?
O
relacionamento de um casal está por um fio por causa de outra paixão.
Não, ela não arranjou um amante, nem ele se envolveu com uma colega de
trabalho. O que há entre os dois é a sensação encontrada dentro de uma
garrafa: o "pileque" causado pelo álcool que, se não for controlado,
pode levar o homem a se tornar um alcoólatra. O Dr. Arthur Guerra de
Andrade, coordenador do Grupo Interdisciplinar de Estudos do Álcool e
outras Drogas, explica o que é alcoolismo: "Não sofre do mal quem toma
uma bebida no final de semana. O problema é quando a pessoa tem
necessidade de estar sempre embriagada e depende de um drinque para
tomar atitudes ou decisões. Quando isso acontece, significa que o
indivíduo sofre de alcoolismo, uma doença que pode ser hereditária
(passar de pai para filho) ou adquirida ao longo da vida, provocada
por diversos fatores".
"Parecia
um castigo de Deus" O tormento de Terezinha, 53 anos, começou no sexto
ano do casamento. O marido era garçom e, portanto, tinha contato
direto com bebidas alcoólicas.
"Ele
adorava uma bebida doce. Depois foi indo para os destilados, bebendo
quantidades cada vez maiores e mais freqüentemente, até ficar dia e
noite embriagado. Foram dez anos de sofrimento. Meu marido se tornava
agressivo depois que bebia. Ele estava prestes a perder o emprego e,
por isso, passávamos por muitas dificuldades financeiras. Eu vivia
deprimida, chorando e brigando com ele. Parecia um castigo de Deus.
Percebendo o que estava acontecendo comigo, uma amiga me indicou o
Al-Anon. Meu esposo largou a bebida pouco tempo depois, quando quase
morreu num acidente de carro. Felizmente, faz dezesseis anos que ele
não coloca uma gota de álcool na boca."
Hoje,
Terezinha trabalha como palestrante no Al-Anon, uma irmandade
internacional que dá apoio a parentes ou amigos de alcoólatras.
CONSELHOS DE QUEM JÁ PASSOU PELO PROBLEMA
Ver uma
pessoa próxima chegar ao fundo do poço dá um tremendo aperto no
coração. Mas, por mais difícil que seja, o parente do alcoólatra tem
que dar a volta por cima e enfrentar o problema de frente. Se você
está passando por esse período difícil, veja os conselhos de dona
Terezinha: "Aprendi que a gente tem que respeitar o alcoólatra, em vez
de recriminá-lo ou forçá-lo a parar de beber. Proibir não adianta
porque ele vai tomar a sua dose escondido.
É preciso
também dar apoio, mas sem superproteger, não ficar naquela de 'ai,
coitadinho'.
Desse
jeito ele vai continuar de porre e se achando o 'problema da família'.
Saiba que o bêbado adora chamar a atenção e a gente não pode entrar
nessa onda. O segredo é conversar na hora em que o alcoólatra estiver
sóbrio e ignorá-lo quando estiver embriagado.
É claro
que nós, que convivemos com essa situação, ficamos magoados. Mas temos
que tocar nossas vidas, nossos projetos e não afundar na bebida com
ele. Ter amor-próprio é, sem dúvida, a melhor receita".
OS
EFEITOS DO ÁLCOOL
Vários
são os problemas desencadeados pelo excesso de bebida. Por causa dele,
os parentes e amigos do doente ficam tensos e abatidos. Mas isso não é
nada diante dos males que o alcoólatra está sujeito. "É importante
alertar que o álcool consumido exageradamente pode ser fatal", declara
o Dr. Arthur Guerra de Andrade. Ele explica quais são as doenças
causadas pela bebida:
Pancreatite uma inflamação o pâncreas. Causa dor de barriga,
diarréia e, se não for tratada, a pessoa pode ficar diabética.
Esteatose
acúmulo de gordura no fígado. Esse problema só é detectado através de
exames.
Cirrose
estágio mais avançado da esteatose. A gordura se transforma numa
espécie de cicatriz no fígado e causa insuficiência hepática. O doente
fica desnutrido, com barriga inchada, a pele adquire um tom amarelado
e aparecem manchas roxas pelo corpo.
Sangramento no nariz e vômitos também são muito comuns.
Infelizmente, a cirrose é irreversível e, dependendo do estágio, sua
cura só ocorre através de um transplante de fígado.
Miocardite trata-se de uma arritmia cardíaca causada por uma
inflamação no miocárdio, um músculo do coração. Por causa disso, o
órgão passa a bater fora do ritmo. Isso pode causar tonturas e falta
de ar.
Neuropatia periférica alteração dos nervos. Provoca a perda de
tato e formigamento nas mãos e nos pés.
Demência
alcoólica uma lesão no cérebro. Seus sintomas são perda da memória e
alteração no comportamento. Dependendo do estágio, pode ser
irreversível.